quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

cartas


carta ao monstro zed

você sabe ler, zed?
seus olhos... são de verdade?
não foi a primeira vez, zed, que um monstro me usou. aliás, já fui antes usada por monstros, por homens, mulheres, instituições, e até mesmo pelas minhas próprias vaidades, meus medos, meus monstros.
mas de certa forma, sempre houve alguma espécie de perdão, de auto-perdão, essa luz cristalina que brota dentro das pessoas que tem órgãos.
desta vez, não houve ainda palavra na sua boca, nem na boca de ninguém que assistiu à sua monstruosidade. percebi que deus coloca palavras na minha boca, mas não consegue colocar na sua.
eu sinto até que muitas vezes esse deus pode ter querido que eu sofresse, pra renascer e descobrir meus próprios monstros e minhas próprias luzes.
mas você deve ser um monstro de outro mundo... de um mundo que não consigo mais acessar à gerações, onde talvez os deuses sejam mais cruéis e permitam que se use uma pessoa até não haver mais qualquer indício de luz. acredito que os monstros desse mundo sejam tão falsos, vazios, traiçoeiros, que a gente não enxerga a pedra escura e inerte que eles têm por dentro, a gente vê neles só um espelho, de aparência cristalina e luminosa, e acredita que está olhando quem sabe pro próprio deus, pra alguém igual a gente, pra alguma coisa de saúde, de amor, de verdade. mas acho que no seu mundo não existe verdade, zed.
e o que se expôs, em nosso triste encontro, talvez tenha sido a inverdade do meu próprio deus, do meu próprio mundo, a inverdade dos meus olhos, minhas fraquezas, meu vazio. ou talvez uma verdade dolorida dessas coisas todas, uma verdade que não consegui suportar, a verdade de que monstros como você sempre vão andar por aí, sugando quem quer que os encontre e se encante por suas mentiras.
você matou minha fé. você me matou.
eu te disse que você estava me matando, na esperança de que talvez você interrompesse o que estava fazendo, mas você fez ouvidos moucos, você me devorou até o final.
eu vi que você pagou de louco, zed, eu quis contar pra todo mundo.
teve quem também tenha visto, e inclusive me alertado, mas muitos não viram, igualmente devorados pelas suas mentiras, muitos me disseram “é assim que os monstros são”... e hoje já não sei onde estão essas pessoas, porque perdi o contato de todas, parei de vê-las, e elas pararam de me ver também.
a verdade, onde está? comigo, não. ela certamente anda por aí, e de vez em quando se encontra comigo, e eu desejei que alguma vez ela também se encontrasse contigo, mas hoje entendo que ela não adentra monstros do seu mundo, que talvez você tivesse que nascer de novo muitas vezes pra quem sabe ter olhos pra enxerga-la, ou ouvidos pra escuta-la. quem sabe um dia você possa mesmo dize-la, sê-la, mas pelo que percebo, esse dia talvez ainda esteja longe... ou talvez um dia desses... você se veja num outro mundo, ou encontre outro monstro, que te faça morrer e renascer muitas vezes de repente, e então seus olhos sejam refeitos de cristal, de água, de qualquer matéria viva, mais aberta e transparente que essa superfície inerte, fria, maldosa que você expõe quando abre as pálpebras.
eu sei que se você morrer e renascer muitas vezes, vai acabar nascendo com uma luz própria, porque isso é quase kardecista, budista, hinduísta, mas acredito que é assim que as coisas acontecem.
as verdades são muitas, mas todas são uma só, para monstros, deuses e pessoas, no meu mundo e no seu, agora e sempre.
é por isso que você não diz mais nada desde que sua mentira se revelou: porque não tem verdade pra dizer, e nem deus que diga por você.
quando me pergunto que tipo de monstro você é, percebo que encontrei o monstro mais perigoso pra um ser humano: o monstro da mentira e do desejo, o monstro que desarma nosso corpo, que expõe nossos olhos e coração, que me fez de repente querer tudo, e que aos poucos me tirou tudo. você é um monstro que conseguiu me fazer não querer mais nada, a não ser morrer e nascer de novo.
quero que renasça minha luz, zed. quero que o deus que me habita não espere nada do seu.
quero esquecer você pra sempre, e não esperar que você consiga abrir a boca e dizer alguma coisa que não seja mentira, abrir os olhos de verdade.
quero mais ainda que em mim brote a luz do perdão. quero perdoar a mim mesma, a você, esse monstro que me feriu por covardia. quero perdoar a deus.
quero a luz da liberdade.
por favor suma dos meus pesadelos, por favor vá embora pra quem sabe morrer e renascer num mundo menos monstruoso que o seu.

inês


carta a deus

querido deus, eu não sei rezar. já tentei tantas vezes, já acendi vela, já fumei maconha, já cortei a maconha, já obedeci, já meditei, já dancei com índios, já chorei cantando samba, já repeti palavras, já saudei o sol, as folhas, o vento, as águas, a montanha, tudo. mas não sei se alguém já me escutou de verdade. não sei se já obtive qualquer resposta, positiva ou negativa. não sei se estive apenas tentando conversar comigo mesma.
acho que me iludi ao sentir as ondas batendo, o vento, o fogo, o amor, os sons e o silêncio do mundo, e achar que estava entendendo tudo.
porque... o que havia dentro de mim secou, e já não sei como fazer pra que alguma parte brote de novo. há algo que nasça das cinzas? nem minha mãe Iracema me contou, ainda.
perdi meu amor, minha paz, minha coragem, perdi minha casa, meus irmãos – terei perdido todos? já terei tido algum?
porque isso está acontecendo justo comigo, que sempre me senti abençoada, viva? porque eu, meu pai? me abandonastes ?
estou triste, mas muito mais do que triste, estou morta.
eu suplico, preciso que alguma coisa nasça, aqui dentro.

(nem que seja só minha fé)

inês, morta.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

a deuses

viajo porque sofro, e, porque viajo, sofro.
viajo pra não esquecer
(e viajo pra não lembrar).
viajo em nuvens, cidades, países,
viajo em ondas.
viajo em pássaros, em pernas, tempeiros,
e a cada despedida carrego todas as outras despedidas:
as nervosas, as tristes, as desesperadas,
as desejosas, as pra-nunca-mais.
carrego a despedida dos parceiros do rio, correndo qual meninos
ao lado do ônibus
explodindo adeuses que alimentaram as janelas,
atravessaram os silêncios seguintes, as paisagens.
carrego a despedida dos índios, o choro daquelas mulheres,
as lágrimas da minha tia, os eu-te-amos engasgados,
a troca de bênçãos e colares, carrego todos comigo
(carrego agora este parto bruto, nesta manhã comum).
carrego, além de tudo, a falta
falta que sinto dos mares, das casas, das chapadas.
e um peso-doído de abraços, planos, sons-risadas (qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar).
não viajo sem bagagem.
viajar é carregar saudades e olhares, coisas do céu.
viajar é partir, é querer que o tempo corra.
viajar é sofrer o correr desabalado do tempo
(bons momentos, passem lentos).

- viajo, e sei que o tempo voa assim como eu. parto, e a vida revela-se rara. sofro, e desejo partir ainda mais -
porque viajar é (se)(re)partir, e partir é sofrer, é um tipo de explodir, um jeito de ser inteiro
- é sofrer encontros, que já são em si violentas sementes de ausência. a violência do tudo e do nada, de apenas ser.

inês, numa manhã de adeus na bahia.

classificados

procuro um homem que às vezes me cale.
que não tente bancar o esperto, e que, ao me abandonar, me avise.
procuro um homem (que coma minha comida, ou cozinhe comigo, ou me faça um drink, ou leia um poema, ou que conheça boas músicas).
procuro um homem que vá comigo à praia, que saiba o que é solidão, e que goste de plantas, ou de gatos, ou de quadros, ou montanhas, ou de poemas, de filmes, cidades, de histórias sobrenaturais.

procuro um homem que me procure, um homem que às vezes me escute.
e que me faça rir, ou que ria comigo, ou que ria de mim.

procuro um homem que me perdoe, e que peça meu perdão.

inês.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

jeito: mente

seduz
mente
usa
mente
troca
silêncio.

canalhice
silêncio.

é só seu jeito, tenho mais é que entender que as pessoas são diferentes...

inês, cujo coração vai explodir, literalmente.
(e você, cínico, preocupado com meu cigarro)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

mortalha do amor

um dia nasce, assim... tão bonito...
e sem saber tá ferindo a gente!
não suporto mais me fazer mal, não suporto mais me afastar, não suporto mais não entender!
no entanto suporto...
como pode esse tal coração doer de verdade?
como pode de repente um tanto de soluço engasgado, um dia inteiro e depois uma noite inteira e depois mais um dia inteiro - dourado, primavera - com esse aperto terrível no peito?
como pode essa tristeza? num dia desse, como pode?
o tempo passa, e eu continuo pior. eu acho que eu melhorei, mas continuo pior. é tudo triste, embora seja mesmo lindo como eu sempre soube que era.
eu sei que tá errado, mas nada agora faz sentido.

inês, ferida de mortal tristeza.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

vou

eu já me sentia escorrendo aos poucos não era de hoje, e pra lugares que sei menos... mais distantes do que a terra do sol e dos cheiros.
pra lugares nada familiares (olhares novos que hão de nascer em mim)

agora parece mesmo que vou.
(parece mesmo que vôo.)

vai saber. mas já olho meu redores com adeuses secretos... e pego-me desapegando-me de tudo o que vai passar. e já doi. já é tarde demais, e o momento é agora. não entendo (mas vôo).

(daquela casa que não sei de que modo me quer nem porque me recebe: só o amor aos santos me fará passar por isso mais algumas vezes. olhar sem nojo a face da maldade e me fortalecer, até encontrar um lugar com alguma paz: o perdão da distância.)

e das coisas que importam - que não encontram-se vivas em cada lugar e instante do mundo... vó e vô me esperem, que ainda não é hora de virar tudo saudade. pai, mãe, não posso pedir que me esperem... que ainda não é hora de virar tudo saudade... mas vou!

inês.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

ser

ouço um vento, aqui comigo. vento interno, violento, que foge pelos meus poros, pela minha boca, pelos meus olhos, e me carrega praquela distante paz diante do revolto encontro entre o mar e o céu, encontro azul entre o profundo e o infinito, o cristalino e o escondido, que me alenta e me transforma no grão de areia que sou. lá, minhas pretensões, meus juízos, minhas desilusões, se transformam em vozes miúdas, em impotentes dores surdas de quereres triviais: trago em mim um algo a mais, que sossega minha fuga inglória, que me traz de volta pra dentro, pra explodir em ondas de vento. e quem sabe ainda haja tempo pras ligeiras alegrias, pras certezas fugidias brincarem no meu ori. eu sei que estou aqui, mas minha mente está lá longe, buscando uma paz que se esconde nos mais doces manguezais. sou um rio que corre pro mar, uma estrela ensaiando um luar, mas caindo pra sempre num nada, pra compor tudo o mais que existe: eu sei, a existência é triste, mas a eternidade é linda, é como esta noite, que finda, numa explosão de pássaros-tons. e é pra isso que existe o samba, pra lembrar que é o tempo quem manda nos caminhos do nosso ser. a poesia é tudo o que resta - pra quem chora, sorri ou contesta - e a sábia cadência do mundo, a batida de cada momento, transformam e vida em verso, convertem desejos em vento, invertem todo o universo!

inês.

longe

cheia lua, lá no alto,
toma meu corpo de assalto
e me põe a caminhar

viajo, num mar de saudades
sem saber o quanto é tarde
pra buscar um porto, e ficar!

estou só, e no relento,
abraçada pelo vento
pelos beijos do luar

lua grande, a senhora
sabe bem o quanto demora
minha espera pelo mar

me rodeiam corpos estranhos
e um desejo sem tamanho
por um cheiro familiar

(aquele, de algas e sal
de um além tão colossal
de um alento libertador...)

lua cheia, estás comigo,
como o céu, que é meu amigo,
como as ondas, meu amor!

inês, que escoa.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

samba em cores

não mais que de repente
sua estrela me ilumina
a noite desatina;
você só me traz paz.
minuto precioso,
um encontro neste mundo:
seu ser é um segundo
(a mais...)
 
tão longe brilham astros
tão raros nossos abraços
(iluminosos passos
com sua voz)

há força entre nós
(nascida em nossos avós):
sagrada brincadeira
(de estrelas da vida inteira)
descuido atencioso
que escapa, precioso
entre palavras e fé

poetas saberão
o que essas horas são
trocadas de repente
aproximando a gente

e muitos são os olhos
e tantas são as mãos
que guiam nossos sonhos
em oração!

sabemos nós o quê?
vivemos nós de quê?
(da força das sementes
em tudo o que há na gente:
de chuva, luz, e terra
querer!)

se dói não ter saudade,
na vida nunca é tarde
unir-se em homenagem
a ser, e só!

se o verde é um broto do preto
(segredo de ancestrais),
meu amarelo é ouro
é sangue dos mortais...
abraça-nos o branco
que entrega, que irradia
pra fora, a luz do dia,
pros outros, alegria,
pros mudos, poesia,
pros loucos, melodia...
e em nós não retém nada:
ilumina nossa estrada
(pra além dos quereres normais)
pra outros carnavais!

beijos da inês.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

não volte

você disse que viria (e disse que queria), e então comecei a preparar meu melhor tempero. escolhi meu vestido imaginando como seria visto, tocado, talvez até tirado pelo senhor. limpei as janelas, isso no primeiro dia. mas você não veio, e eu me decepcionei, e comi sozinha todo o jantar.
no dia seguinte o mesmo... outro vestido, outro tempero... um sinal de desejo, e então escureceu e veio o vazio... não entendi o que havia se passado.
depois, por vários dias, a mesma espera, outros temperos, outros vestidos, outros discos, os cachorros latindo pra qualquer um que se aproximasse da porta, como se também esperançosos pelo seu retorno. comecei a entender, comecei a chorar. escrevi. perguntei se era abandono, mas o senhor disse que não, que era só seu jeito.
mas tudo, por melhor que seja, envelhece, resseca, murcha, foge.
era só dizer que não se dava bem com o tempero. era só dizer que não queria saber de vestido, de música, de conversa, de nada que eu tinha pra oferecer, a não ser aquela pequena parte do meu corpo da qual o senhor sentiu falta quando não mais pôde desfrutar.
eu senti que não merecia mais esperar pelo senhor, nem guardar meu carinho, minha atenção, meus cuidados, meu tempero, meu tempo. mas chorei ainda muito até entender que não havia nada de errado comigo, chorei às vezes com desespero, mas quase sempre com uma tristeza tão doída, que por dias as janelas sequer foram abertas, sequer coloquei vestido algum, e comi e bebi sem vontade, entre soluços e silêncio.
o senhor já está na idade de saber que pode destruir o coração de alguém com tanto descuidado. por favor, não volte.

inês.

la cúmbia

um amor antigo - tão velho, amor!
nós dois, naquela árvore (nós dois na rua da árvore, caminhando à noite pela cidade da árvore, tão quase-na-árvore que era como se estivéssemos no seu tronco, nos galhos, entre as folhas lá no alto)

o que nos terá acontecido, que pra tão longe fomos?
(é o curso mesmo do mundo, o tempo-rei-de-tudo, o infinito...)
(é você que pensa demais, inês, é você que sente demais!)

hoje, compreendo meu privilégio (afora o malbendito mel que não me serve mais) de caminhar pelas ruas de qualquer cidade, à qualquer hora, só... pois já partilhamos nossas regalias numa noite iluminada na cidade-das-pedras-reluzentes-e-da-árvore. teríamos imaginado nosso segredo naquela noite?
não por acaso fui conhecer a cúmbia tão longe do seu atento saber (saber trazido de tão longe, tão com-amor cultivado, preparado pra encontrar miudamente os tambores, recife, a nigéria, qualquer parte da amazônia): pra mais tarde descobrir com esse delicioso espanto que ainda estamos aqui, e que já ouvimos coisas tão parecidas de partes dispersas de uma mesma sagrada-força.
o que terá sido? afora sopros de vida, luzes brotadas do mais interno-sagrado-fêmeo, pássaros cantando, pássaros voando como um canto da nossa terra, bastava escutar o vento atravessando árvores ocas, o debaixo-do-barro-do-chão.
(eu, que confio no dono das ruas e da noite, e no dono dos meus caminhos como se deles todos fosse filha)
(você, que tem fé e vem de longe, que tem olhos com histórias, que anda só, como um dos nossos muitos gêmeos perdidos-encontrados nas noites-cidades do mundo)
sempre estivemos por aqui, partes de uma coisa só, quase poeira de estrelas (e de folhas, de pássaros, conchas, instrumentos, restos de seres, pérolas, começos, barro.)

inês, na noite de algumas despedidas.

sábado, 17 de agosto de 2013

meu coração acelera, mas bate pesado como um relógio-da-sala: meu sono, meu riso, meu choro, minha fome, meus sonhos são inquietos, dispersos, e ao mesmo tempo pungentes, como se um pão crescesse no meio da minha garganta. é quase morrer, esse viver tendo sustos, ímpetos de uma tristeza sem fim aliviada por pequenos suspiros de uma ansiedade nervosa, fugitiva.
não dói só a dor do impedimento, nem tampouco a dor do arrependimento. dói, lá no fundo, a velha dor conhecida de sempre, a dor de se estar profundamente só, de não se reconhecer em nenhum olhar, em nenhuma voz de ninguém, porque tudo o que existe de fato, fora o mundo todo lá fora, é esse mundo todo aqui dentro, do qual sou senhora e não sou, e que já conheço bem, mas no qual ainda me perco tanto.
a certeza de que somos todos bons trava luta constante com a certeza de que todos somos maus, e deixar que outra pessoa, por querer ou sem querer, possa me dar um chão pra depois toma-lo tão bruscamente e sem olhos-nos-olhos, me atira como um soco cósmico de volta ao início de uma caminhada que terei que fazer novamente, só que cada vez com um peso mais insustentável.
há aqueles que se preocupam visivelmente com minha coluna, mas sequer imaginam que o que ainda vai me matar é este coração, cujas batidas chego a escutar empurrando meu peito quando estou tentando dormir, principalmente quando não há ninguém comigo além de mim, sendo que tampouco haverá na manhã seguinte, e sendo que talvez nunca tenha havido, de fato.

inês.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

re-partindo

neste dia e nesta noite silenciosos, me pareceu cristalino que não há como reconfortar ninguém sem ter realmente sofrido até perderem-se quase todas as esperanças. conheço uma solidão profunda que me acompanhará pra sempre, e ao mesmo tempo sei que uma parte de mim e do mundo sempre escutará a minha dor. um dia vou partir e nunca mais voltar, mas enquanto isso parto e reparto minha história através do meu trabalho e através da minha fé. é verdade que nunca se retorna ao mesmo lugar: não há passo pra trás, mas apenas recomeços. as saudades são verdadeiras joias doídas e maravilhosas que expandem meu coração e me fazem ver a cada dia mais longe, especialmente em dias e noites de silêncio como estes.

inês, que já se foi sem perceber.

domingo, 28 de julho de 2013

dores

não há retorno para aquela ingênua vida de desejos: quase tudo já morreu e o que restou foi um veneno amargo e o sufoco da solidão.
não creio que eu venha a ter quem cuide de mim como sempre cuidei de quem gosto, e nem eu mesma consigo amar meu próprio corpo, que envelhece acompanhando meus sonhos e tudo aquilo que nunca consegui ser.
penso em morrer, em ir embora pras ilhas, em fugir ou morrer, porque não tenho ninguém com quem trocar sinceros e verdadeiros cuidados, não moro perto do mar, e não vejo sentido em viver sem sentir a alegria que sempre carreguei quando ainda acreditava em alguma alegria de viver.
os alejados, os miseráveis, os desvalidos, os loucos, penso sempre neles... mas não consigo acreditar que me faltem desgraças pra que eu valorize a vida, porque afinal sempre achei tudo tão precioso e divino e lindo, e sempre tive tanta fé na vida e no mundo... que se agora tudo está tão inesperadamente sombrio... é porque talvez seja hora mesmo de desistir, pra mim.

inês.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

vi

saudade
como dói fundo
fundo
fundo
tão fundo e tão doído!

como posso, em um dia, explodir de chorar e explodir em riso
riso com lágrimas e a boca cheia
olhos
maiores que a cara
luzes e energia sem fim
sede, amor, suor, desejo, açúcar, saudade!

como podem ter cabido tantos homens tão enormes, tantos deuses fortes com suas paixões transatlânticas
tantas falas, de lugares tão longe
quanta saudade eles me trazem, assim logo tão cedo!

quanta saudade, assim, de tudo - com quase tudo tão recente e perto e vivo
e tanto riso!
como dói fundo, e como dói tudo!

não consigo dormir, porque dói, e porque, nem acredito, mas é como se tivesse muito pra rir e pra chorar ainda hoje.

inês, doce, na sua cidade preferida da infância.

domingo, 16 de junho de 2013

parto III

quero ir
embora
queira no fundo
viver pra sempre
aqui e lá

lá longe, onde já vi que é diferente, onde há outro sotaque, outras palavras, outras formas de viver e de morrer, onde
há mar
é tudo.

inês.

sábado, 8 de junho de 2013

parto II

poderia escrever os versos mais tristes esta noite
sobre alguém que tenha querido tanto
mas não sou poeta, e quero apenas partir.

sinto-me incapaz de aprender, na busca teimosa que empreendo por um abutre que me bique o fígado.
entrego-me ao desejo de cem mil homens, e é como se eu nunca houvesse sentido nada.
dorme meu corpo (a última canção, desesperada).
apenas espero: apenas partir.

sinto-me nada, como se nada nunca houvesse sentido
e ao me buscar, percebo que já não estou: já parti-me em pedaços.
a-risquei-me nos muros, nua, sem versos, palavrassoltasgritos.
grito e não me escuto: pois nunca fui poeta.
e tudo o que quis foi partir (o que nunca tive).

inês.

embora

partir
a fruta
da vida
e ir
pra dentro
do mundo

seguir
histórias
sem fim
correr
atrás
de mim

embora
tudo
igual
longe
daqui
inteira.

inês

quarta-feira, 8 de maio de 2013

bênção

as coisas não se separam, elas se desdobram: expandem-se, escondem-se, não faltam, mas sobram. em todo silêncio há sopro, em todo ruído há força. os Outros caçam-se e cantam-se, dançam até que hoje seja ontem, até que esta noite seja (a)manhã. entramos, divíduos, no mundo das luzes (pensando serem sombras o que o olhar externo não vê). abrimos o corpo ao fecharmos os olhos, abrimos os poros cantando com fé. o Outro é o que nos alimenta, o Outro alimentamos. nossa fome é do Tudo, aquele que está em cada. a cada dia, cada passagem permanente. não temos lugar, somos o lugar infinito de todos os tempos, mundos simultâneos de agora e sempre.

inês.

domingo, 5 de maio de 2013

eu nada sei

estou tão longe - mas perto
estou por fora, mas lá dentro
um pássaro voa, e com ele minhas lentidões
meus sabores preferidos
meu passado.

faz frio, e é tão frio o frio
silêncio e som se abraçam.
(finda a noite veloz, e folhas caíram, vigiadas por deuses e amadas por pássaros)

aqui dentro bate um coração quente - afogado entrefolhas (des)conhecidas
quero um amor que já existe, e nem sabe ainda como nascer ou nasceu
(enquanto corremos as árvores nos devoram mesmo).

quero seu desejo ao infinito, ainda que tudo seque no frio e reste apenas aquilo que não seca.

estou aqui ainda, foradentro
engulo o quente enquanto o frio me engole
e o quente engole o frio
e nunca mais estou só.

(quero seu amor aqui dentro)

inês.

terça-feira, 30 de abril de 2013

amizade

na rua senhor dos passos vindos da pedra do sal
no silêncio do comércio, gritam os escritores e caminhantes
(noturnos)

lapas
confidenciam
mistérios de almas errantes, encontros, desejos, suspiros, histórias
(quem somos nós - que vindos de tão longe nos encontramos naquela esquina relembrando o poeta Sinal, salvador?)
amanhecemos, eternamente irmãos!
(mais um sinal no meu caderno de prezas)
e cá de cima eu vejo a noturna cidade, que engole violenta ellas e pais de família
a despeito do que há ali atrás da zona do cais - o mar.
cá de cima, à procura de uma tinta um muro: rio, te amo. rio, te deixo. queridos poetas, não se esqueçam de mim. abaixo a ditadura. vou voltar. minha história é mais bonita que a de robson crusoé.
um resto de tinta, um muro:

inês
(.)

sábado, 27 de abril de 2013

esquinas

cachaça
canela
pernas
tropeços
cheiro de doce cheiro
(na lapa as pessoas caminham e riem e dançam carregando suas todas faces)
sou uma bola de ferro e de repente sou fogo
haja mar.

inês.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

vou

céu
(tão longe o céu)
banho de azul - imenso azul querido
já não o mesmo que conhecemos nos tempos de brincar de deus
(tão novo céu, azul que nunca vi)
presente fresco de manhãs escancaradas
(irrompe esplendoroso ao espreguiçar o dia)

no tempo dos furinhos nas bases dos dedos, não esperava qualquer esquecimento
- como será possível esse escurecer interno? -
de que cada dia valeria a pena - único, única luz, único verde, único azul ou branco, único amor.
já podia voar, e posso ainda.

inês.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

abriu

brotam cá dentro lá fora nas pontas do corpo à espera de um vento
(um último sopro)
até que outros sopros me sequem ao sol!

então serei só:
a poeira e o resto do verde querido
amor (ressequido)
e só isso mesmo: mistura - tão forte!
entregue à sorte conexa ao tudo
sem medo, sem morte ou cantospalavras que irrompem do nada
- só o brotar teimoso
 do sempre.

dançamos ao vento
(à espera de um corte)

que outra beleza se há de querer?
(cá dentro, lá fora, esperar... e só ser?).

inês que viveu e inda não brotou.

segunda-feira, 25 de março de 2013

ciclamato

tu és doce.
áspera eu.
e meus peitos ásperos perdidos no seu computador, reduzidos a lembranças-objetos do seu ego, eu indelicadamente solicito que não sejam mais tocados pelos seus olhos
que hoje
não merecem
tocar
minha
aspereza.

vazias palavras.
estou cansada.

prefiro o duro que o amargo, que nojo do amargo.

inês.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

delicado. ou: para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem.

o anseio de não estar só não serve pra qualquer noite
noite em que me perco, disperso, entre abraços e sambas e perdões
(sambar é um modo lindo de perdoar a dor)
saudade é mato, mesmo
(sambar é um modo lindo de querer)

a cidade é um pátio
e logo o mundo é um pátio
desilusão é mato, mesmo
(vou-me embora pelo mar).

seres lindos parecem me querer
(me querer pra quê?)
e eu me deixo seduzir de leve, por olhares solares
toques, marcas, promessas
a saudade aperta, mas meus olhos estão cegos e preciso respirar.

quero marcação
surdão
e correr, com toda a força e velocidade do corpo
(fazer vento)
e parar e dançar
e rezar
e dançar
e chorar
e cantar os sambas compartilhados em roda com todo o ar dos meus pulmões, até que a alvorada nos expulse da rua e eu tenha que dormir.
dormir só
(só?)
não importa.

salve, cadência sagrada que nos redime e que me alimenta!
quando o mundo acabar, eu estarei no samba.

inês.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

tempo de meteoritos

estrelas cadentes passam nos jornais (abrindo crateras nos Montes Urais), enquanto - diante do que me cega - danço.
estrelas
errantes
(na cadência lenta-veloz do espaço)
o que é o tempo?
(mulher nua no balanço. tempo manso)
sábias senhoras, no compasso dos céus
(brincam conosco em seu carrossel)
nos despertam os sonhos
com seus raios de aurora
estrelas
(menores)
perdidas na areia
banham-se em silêncio
escutam histórias 
(as de amor, trazidas ao mar na doçura do rio)

eu rio.
estrelas da praia beijam meus pés
(estrelas brilhantes acima de nós)
(datas marcadas. tempo feroz)

e quando, enfim, nos vimos a sós
sopravam por frestas
nosso sono quente
vigiando, zelosas, as loucuras da gente.
(amor reprimido. tempo perdido)

silêncio no mundo - e um tambor no meu peito
eu sabia que ali, a cada segundo,
uma estrela nascia (ao passo que outra morria)
e entre cores, brilhos... e um céu infinito,
lá no alto uma história
um encontro (bonito!)
entre filha de estrelas, poeira estelar
(dores dentro)
centelhas
ouro do mar
e príncipe (ou rei?)
(que certezas terei?)
senhor de fogueiras, incêndios contidos...
folião curioso, brincando comigo!

entre cheiros - e toques
a energia dos corpos
acomodou-se entre as formas, e cores e vãos
até explodir
janelas afora, subir para o céu, crescer (e ir embora!)
(um amor desejado. tempo parado)

e foi tudo tão breve, um cometa brilhante
(uma onda do mar, carnaval de amantes)
tive medo de amar
(e seguir adiante)
e, brincante,
entreguei-me inteira ao desejo sem fim
com a bênção dos céus, santos e serafins,
consumi-me entre o brilho
ateei fogo em mim!

inês, morta e nascida e morta na sexta-feira de cinzas.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

filtro dos sonhos

banham meus pés espumas prateadas
(descomunal energia, delicadas lambidas de amor e perdão)

mãe colossal de todas as mães
embebe o ouro milenar
(pura entrega, fosca e reluzente),
embebe meus poros
minha pele aberta, meus cabelos
cobre-me de água e sal
(lava-me os olhos e os sonhos).

traz-me amantes com cheiro de mar
sopra
até brotarem as forças dos meus movimentos.
lava profundo isto que sinto
e canta
cantigas de marinheiros
cantares de avó.

e mergulho com devoção (nos cristais infinitos
ocultos sob as ondas embriagantes - limite entre mundos)

traz-me amantes
pro fundo do mangue
(profundos silêncios,
entregas sutis,
estalos, feitiços, lama, doçura)
berço verde
que sol e lua
abraçam, esquentam, escondem-revelam.

e as ondas de açúcar
mistérios resvalam
(trazendo cantos de esquecimentos doídos
de amores passados
naufrágios
engasgos)


sou casco, estrela, areia, coral
um resto mortal
reluzente
e só.
sou lama, sou água,
sou rio
sou pó.

dona de nada, senhora de tudo
um traço bruto
que o vento e a água constroem por fé.

inês.
(a vida é tão rara!)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

mais fé, por favor

vai-te embora, inês paraíso!
inês perdida, inês-sem-lugar, inês morta, inês inteira
vai-te embora por estas terras, sem medo do invisível
sem medo do insensível, do desamor do mundo
vai-te embora pelos caminhos sagrados
(por tudo o que é mais sagrado).
e fé na entrega, que doar-se é ganhar o mundo inteiro
fé nas mil fendas que o corpo feminino esconde
fé na solidão, na inteireza de todas as dores,
fé no amor dos seus próprios pés, o único amor que há.
vai-te embora, pra onde dança o espírito
pra onde há que ser bruto pra ser delicado
(vai-te embora das delicadezas da conveniência).
e vai com fome, jejua.
vai servir.
pede licença,
pede desculpa
(àqueles que te recebem).
recebe aqueles que te atravessam
(agradece aos que te atravessam com doçura)
desapega,
desilude,
perdoa.
vomita o choro,
salga a carne,
mergulha!
escuta,
fortalece a guarda,
tem fé,
abre os caminhos do corpo e do mundo...
e vai-te embora.

inês.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

parto

é um broto que me perfura violentamente a noite, e já não me sinto mais tão só.
como se nunca mais fosse possível me perder ou me encontrar, e como se todos os olhares possíveis fossem eternamente meus.
é meu útero que explode, um rebento viscoso, irritado, cansado de esperas, fêmeo, e só.
a falta amarga de um amor
(que não me sugue como se eu fosse um ídolo frágil,
que não aflore luminoso de um anulado vão escuro, 
que só me sugue 
e que já saiba se cuspir com algum pouco de cuidado)

dançam santos conosco, e eu no fim caminho sempre só

sem homens e seus quereres mesquinhos
só a lua, a força da caça, o descuido preciso do vento, o carinho dos fluidos femininos do mundo, o bater do meu coração
meus defeitos murchando sem eco
talvez
meus desencaixes todos tornando-se os rastros de uma entrega
uma suspensão
olhares noturnos
naturezas particulares e expostas, senhoras de si e do mundo, porque solitárias de homens, porque desajustadas, talvez.

não fosse a desilusão permanente, o contratempo teimoso da fé

não desabrochariam tantas flores, e as cigarras talvez cantassem seus últimos cantos de primavera de modo mais contido.

inês.

sábado, 10 de novembro de 2012

o cachorro uivando perdido no meio da neblina

neblina
na noite
filtro difusor de uma grande vitalidade estética da cidade, a imagem,
viva, semovente, povoada de mutabilidades devires tensões deslocamento
um jogo gigantesco, mais invisível que visível, morada de tantas nossas projeções, viagens, anseios, medos.
preciso sair e caminhar também na chuva no escuro, em meio a sabe-se-lá que tipo de ratos, feitiços, maldades...
bênçãos...
visões e olhares que escondo de deus que já me dou satisfeita por ter como minha vida inteira.
tá imbaçado...
mas a rua chama, suas concavidades vorazes, seus silêncios inesperados, seus vazios...
a rua, aberta, repleta de ímãs densos, irresistíveis como experiências alucinógenas-cinematográficas-geográficas-gráficas-místicas, suga a alma e aos poucos a carne, seca algumas coisas
inunda-nos de vazios e de universos

a neblina em qualquer selva
filtro difusor
máscara de ver menos e sentir mais.

inês

terça-feira, 30 de outubro de 2012

há mar lá dentro.

pensei que fosse o fim, o coração desgovernado (desespero, descompasso, os ecos doídos de uma vida só.)...
mas ondas me lavaram o lixo.
e meu peito aberto entre conchas encontrou a paz de um azul mais infinito que o céu, a paz de um mergulho silencioso profundo
no reino sagrado da mãe dos homens e dos deuses.
amor, livre, me tomando sempre antes que eu seque.

inês.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

caracóis

quase todos os dias são sempre meio doídos, e de vez em quando acontece de eu querer ir embora praquele lugar de lembranças brilhantes, cujo nome não posso escrever aqui. talvez essa hora seja agora, e por isso meu quarto esteja com tanto lixo acumulado, as coisas todas subindo pelas paredes, não aguentando mais esperar por mais janelas.
ao mesmo tempo isso demanda organização, demanda foco, demanda justamente apego.
tudo tão bonito que cega tão suculentamente bonito que cega tão doidamente bonito que cega.
entre relatórios, passa um caracol, e eu preciso ficar olhando pra ele.
não tem problema, o tempo expande-se, e eu nunca mais vi um caracol.
está tudo tão empoeirado, eu estou tão triste e me sentindo tão bonita e tão cega que é preciso mesmo...

inês.

terça-feira, 26 de junho de 2012

cratera

o olhar da minha mãe uma ferida que nunca estanca aberta insistente doída o suspiro do meu pai quanto lamento quanta distância e desespero o inevitável fim cada vez mais próximo, e a infância lá looonge... com carinhos surpresas e ideias novas planos sonhos delicadezas...
quero uma pele novinha quero tapar buracos curar essas doenças estranhas quero que ninguém chore mais por mim esse monstro de ansiedade e ódio em que me transformei.

a velhice é triste.

inês.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

saudade é mato, com gosto de framboesa amarga.

não há terra do passado pra onde eu possa retornar. há só uma descida infinita e cada vez mais sem queridos da infância, cada vez menos certeza.
vou me sentindo mais forte, mas ao mesmo tempo tenho menos em quem confiar, e diante dessa esperteza toda da morte, quero abandonar os poucos que me restam pra assumir enfim a explosão da vida, o tamanho do mundo e a única chance possível de viver tudo.

... mas que existisse aqui mais desejo e paixão, um certo amor pelas coisas mais trabalhosas e delicadas, pra só assim não correr esse risco perturbador de um dia de repente sentir a falta de gestos e sensações já apagados e mortos de fome.
e preocupações com coisas sérias que não acompanharão nossos corpos seja lá pra onde forem, e desesperos por alívios quase doentios de tão vazios sufocam as coisas que mais valem a pena na vida.
que eu nem sei mais com tanta certeza assim se são realmente o barulho do mar, o conforto do sorriso e da voz de algumas pessoas, as lembranças secretas que afloram de vez em quando e alguns tipos de frutas, chás e perfumes.

inês.

sábado, 17 de setembro de 2011

coração, terra em que não se anda...

não está certo sentir raiva das coisas do coração.
(mas deus sabe dos silêncios que me deu, e eu sei quantas vezes fui eu a aceitar um mundo tão maior que meus desejos.)


inês.

sábado, 9 de julho de 2011

hurricane

eu odeio o que a igreja, a tv e a escola fizeram à minha família
(e lamento por minha solidão, lamento por tantos espectros...)

os diamantes brilham, mas não emitem luz...
cristalina verdade, a solidão.

fecharei meus olhos de fantasma pra ver a floresta de cristais e espelhos
(fecharei meus olhos para dançar...)
mas antes preciso assassinar certos seres

alçar vôo num sonho e não ser mais só eu.

inês.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

das coisas que não existem.

irmão mais novo, ausência doída que muitas vezes quase escrevo. o que fazer com ele, que, antes tão jovem, tão alegre, hoje computador, desemprego, solidão, frustração, mediocridade sem volta, desinteresse pela vida, mulheres fúteis que nem ele mais suporta, classe média, provável maconha sem sentido, pressão da pressão da pressão, diploma guardado, nomes pesados, sermões, mágoas que suporta no coração ainda tão jovem e já tão entupido com gordura e ressentimento, depressão, completo torpor, provável medo, afastamento do mundo, falsa e desesperadora incapacidade, improdutividade e passividade absolutas, a vida passando.

que sensação terrível é essa acumulando-se há algum tempo e tornando tudo tão mais escuro e sufocante e triste?

deus não permita que esta casa caia nessa perdição, ou são muitos os corações que se perderão para sempre...

inês

quinta-feira, 21 de abril de 2011

libéralité, ou: bruta flor do querer

só em casa, no meu quarto na minha cama fumando um baseado bem feliz escutando raul de souza meu deus que coisa maravilhosa.
pensando nas coisas.
vou estudar daqui a pouco é uma delícia (não vou estudar instrumento, mas também seria bom se eu estivesse na vibe).
vou daqui a pouco viajar com uma mulher, ela parece uma fada de cabelos curtinhos comendo manga de vestido branco no meio de um bosque ensolarado. e a gente briga, já, as duas, e parece que as brigas só dão mais tesão espero que este instante dure bastante... hum, vou comer uma fruta. vou pra rede.

inês, bem viva.

terça-feira, 5 de abril de 2011

ser-pele

cá está minha boca cheia (de cansaços e de quereres), e meus ouvidos à espera da costa do marfim (meus olhos ainda esperam o mundo inteiro), e os cheiros que estão na minha memória mal cedem espaço pros outros que aparecem.
sou toda tato, a serviço de leis que os homens de cá e de hoje desconhecem.

(porque é minha língua que toca o gosto, meu tímpano e cóclea e cílios e cérebro lambem o som apertam tocam esfregam ou resvalam, e meus olhos saem daqui e passeiam pelo dias - ou pela escuridão - deitando-se sob as mangueiras do mundo ou beijando o espelho.
o cheiro das coisas entra em mim sem limites pra tatear tudo o que sou e que fui, e às vezes queda-se na pele de dentro, nas peles dos meus duplos eus, ou mesmo nos pequenos pedaços de mim que se dão constantemente aos outros, e nunca mais desapega.)

algumas coisas passam por mim pra me abrir mais poros, superfícies permeáveis e infinitamente táteis, e não há tristeza ou alegria que me protejam do toque eterno lindo e dolorido entre o mundo e eu.

inês.

terça-feira, 29 de março de 2011

bilhetinho

não sabes ainda... mas danças em mim desde aquele instantezinho de ontem à noite em que nossas peles se chocaram. devo confessar que desde sempre tive predisposição a te amar, mesmo antes de ver de tão perto sua alma açucarada e dançarina, mesmo antes de me permitir imaginar tão pouco espaço entre a gente. tens algo de moderno, de artista, de outros planetas e de goiabeiras e riachos e porteiras. tens um viço e uma beleza que adormecem certas partes do mundo. tens fome e delicadeza (e por enquanto tens a mim). vamos assistir a um filme? vamos fumar um baseado, dançar bolero, tomar uma cachaça ou suco refrescante? vamos pra cachoeira vamos pra praia vamos ficar pelados? vamos ter um filho? vamos pra recife?

eu te amo.

sábado, 26 de março de 2011

prece

frio metálico com calor de fornalhas - frustração de me ver no círculo vicioso da agressão
quase tudo é amargo e tem gosto de sangue
só o amor me libertaria agora, só dele não desisti
ou quem sabe a guerra, amarga, metálica
quem sabe qual dor de liberdadentrega.

estou preocupada com o completo sumiço das borboletas e com o movimento messiânico dos grilos sapos pássaros rumo à terra sem mal. o livre arbítrio agora me assusta. a dança dos astros e a sálvia e a noite.

bela boneca de piche, sê feliz! te devoro em sonhos. mas o cigarro me assusta. (o fim. que a propósito já existe desde sempre.)

deus acompanha meus currículos. e que meu coração volte a querer alguém.


amém.

domingo, 6 de março de 2011

estação infinita da lama com brocal

há carnes deliciosas excitando baterias ensurdecedoras no meu corpo
(na cama que escolherei?)
e crianças musicais transformando latinhas em futebol.

e bêbados,
como há sempre
e guardas.

(há becos
protegidos pela guarda municipal
e isolamentos da rede globo e da polícia.)

há cachaça boa
lá da região de salinas
há pó.
e sonhos e lantejoulas e sapatilhas.

há, como sempre, humildade e brodagem além dos racismos
além de muito suor e sereno.
há a vibração da mãe áfrica
a libertação de todos os gozos ancestrais.

mas aqui nada tão negro tão forte tão brilhante tão fluido tão comovente e vibrante quanto o carnaval do meu tão longe recife enchendo os mangues as ruas as casas as portas os olhos
os corpos dos que se entregam aos deuses do amor e da guerra

(e abandonam suas almas
entre a boiada lírica da quarta feira de cinzas na rua da boa hora).

inês.

domingo, 5 de dezembro de 2010

a casa

range a casa, range toda, estrala seu chão de madeira as portas as telhas os quartos as salas (pra que tantas salas tão inabitadas?)
cada canto carregado de poeira e tristeza, tristezas inesquecíveis rondando os cômodos.
(janelas doentes.)
e, mais que tudo, sempre silêncio, um silêncio sofrido por todos mas promovido por todos do café da manhã ao último chá.
esconderijos
nãos e trancas
trancas, nãos e esconderijos.
cachorros expulsos
amarga casa, amarga infância, amarga juventude.
(amargo amor doente e sufocante)

não há conversa (só desastres ecológicos)
(parece que possuídos pelo capeta da Igreja)
(eu também possuída por tantos capetas)

valorize, valorize, valorize
ame.

nunca amei isto aqui
maldição terrível de uma desgraçada família classe média à espera da morte.


inês.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

numa galeria.

talvez eu seja uma ninfa. um bocado às avessas, preguiçosa (ninfas são todos os pecados capitais, talvez inclusive preguiçosas). só não danço, e por motivos e apegos mundanos e mesquinhos que já ficaram no passado. creio que ninfas, por essência, dancem.
basta a existência pra existir o desejo, e o desejo sozinho não cria lei nenhuma. meu deus, quando me dou conta de como esta vida é curta eu penso: vai, inês! sê gauche na vida!
sê ninfa!

basta de separar famílias por causa do sexo -nada contra o sexo- eu já nem consigo mais ser tão livre como antes, já nem tão destrutiva e ilusória. o certo teria sido me casar com o pedro, a gente habitava esse mundo só com amor e folhas de parreira mas que diabo eu querer tanto que as coisas doces se repitam exatamente como foram às vezes! mas já foi... neste momento, uma cria franco-porteña absorve líquidos amnióticos e espera sem culpa por um mundo onde tudo faça sentido (e sabendo disso posso ser mesmo nada mais que uma ninfa paralítica, mas já com todos os traumas físicos superados).

me libertando da vida não eterna, bastam as geléias/jabuticabas interrompidas (luiz gabriel, você deixou de ser você dentro de mim desde um dia desses que pode ter sido qualquer um dos nossos dias), glória a deus nas _______
não li ainda a llansol que ganhei do jovem felino cineasta incompreensível, mas já vi que posso _____ ao folhear!
minha vela arde de um lado só, mas com lume tão intenso!
me cortejar agora seria uma irresponsabilidade independente do que no fundo eu sinta das irresponsabilidades. eu sei que é invisível. é outra coisa.

inês.

domingo, 21 de novembro de 2010

não é que o ar esteja me faltando...

pensei que fosse asma, tive até medo de morrer. o ar entra, mas parece que pára no pescoço. não preenche meu corpo todo, nem mesmo só o pulmão. o ar fica preso fora de mim.

tem dia que é pior, tenho medo.

médico pra dezembro. não quero morrer sufocada. pela sensação acho até que já morri (do coração).

inês.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

boulevard tristesse

noites sem dormir - e falar sobre isso é que nem cutucar amputações em insetos.

o mais evidentemente valente e forte na história esquece o próprio nome.
dum dia pro outro.
murcha.

e não sei se o que tanto nos corrói em silêncio é a saudade eterna que a vida nos obriga a sentir ao longo dos anos, ou a certeza de um fim certamente dolorido, lamentoso e solitário.
a velhice é triste.

inês.

domingo, 5 de setembro de 2010

trechos

finda a era dos grandes amores e dos grandes sonhos (tão leve o que há dentro da terra quanto o que há no céu), há tantas dezenas de perguntas ainda sem repostas - e tantas mil respostas sem sequer uma pergunta que as aquiete - que o mundo assume por fim sua forma

de quadro colorido e constantemente transtornado e constantemente transmutado em outros tantos quadros
(eu tenho mais de 25 anos)

agora sei que o mar pode ser calmo e intranquilo ao mesmo tempo, gosto de descobrir caminhos que sequer existiam quando precisei deles, e gosto de quando descubro velhos caminhos - quase sempre musicais.

que bom que os homens inventaram a psicanálise (mas não acho nada disso necessário).

denso matagal me abraça quando o outro (...)
o não-eu, os limiares mutáveis de mim mesma, minhas transformações, meus silêncios submersos, meus segundos e centésimos e milésimos, o imenso não-meumismo de tudo o que considero meu
o nunca eu
o contrário e oposto revirado de mim (que é infinitamente maior que qualquer coisa que existe, porque tudo é tudo).

inês.

sábado, 3 de julho de 2010

ou então isso

por que diabos tenho tanto que pensar tanto?

(foda-se se continuo escutando aqueles mesmos velhos discos).

eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar, porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais do cume calmo do meu olho qu assenta a sombra sonora de um disco voador.

(ah, como é bom me consumir pela vida).


inês e miles, marijuana, chocolates e saquê.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

inês, aqui.

Preguiçosa
Presunçosa
Vaidosa
Medrosa (Covarde)
Orgulhosa
Competitiva
Invejosa
Rancorosa
Egoísta
Obsessiva e paranóica
E com fortes tendências a desprezar pessoas iguais ou mesmo melhores que eu.

eis a verdade.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

frenetic blues

Bagunça, noites viradas naquele bar enlouquecedor de sempre, beijos em muitas pessoas, tudo junto e misturado, álcool. Dança e perfume de saxofonista apaixonante, coração meio esmigalhado, mas tudo bem.
(Vomitei no banheiro, nem foi porre, acho que estou doente, tomara que nada grave, e o garçom que me viu tomando ar na cozinha quando comecei a passar mal, uma coisa romântica passou pelos olhos e sorrisos de ambos, teve que limpar, que era o trabalho dele e eu tava sem forças. No dia seguinte, fui tocar lá com meu grupo e ele me abraçou durante muito tempo. Mundo louco.).
Um homem me disse que eu fosse no centro-espírita, e tirou um calor da minha cabeça com os dedos. Sinistro.
Beijos com gosto de cigarro no argentino lindo mas meio sujinho. Nem sei porque, tudo muito normal e sem desejo (noutra noite, no mesmo bar, encontrei-o com uma flautista baiana igualmente linda de morrer que eu já tinha conhecido na vida, e quando fui ao banheiro, ela entrou junto e lambeu a minha língua compulsivamente por 20 minutos). Segredo.
Dor e dor de ver Luiz Gabriel tão longe e tão perto, tão se achando o iluminado que resolve os problemas dos outros. Por um instante, num dia desses dentro do ônibus, quase quis me aproximar e abraçar ele todo, fazer carinho no cabelo de bolinhas. Mas a lembrança de que ambos já dissemos um ao outro o quanto somos desprezíveis desceu um gosto amargo que queimou fisicamente meu peito. Elegia.
Falando nisso, meu peito tem ardido frequentemente, e minhas amigdalas estão estranhas. Culpa da minha vida suja, diz minha mãe tão agressivamente e autodestrutivamente inconformada. Dor.
Grandes mudanças na vida, no ritmo que de repente perdeu toda a compaixão, e nas cores, cada vez mais noturnas.
Medo de não dar tempo de algumas coisas.

inês.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

cinema

Flaneio surdo no reino das imagens: lá estão as canções que esperam ser escritas.
(Que foi que fiz até hoje, senão planos de planos?)

Já não há sinais mágicos nos sons da rua, ou nas falas de qualquer pessoa. Nada de grandes promessas, nada de futuros brilhantes.
(não há razão para fuga...)
Aquele espetáculo de mistério e certeza de outro dia desses deu lugar à contemplação silenciosa das belezas discretas, ao dessabor de nada haver nunca sido desvendado e à percepção meio resignada de que nada de tão grandioso se cria do lado de cá das telas ou das letras, a não ser a dança das coisas acostumadas ao tempo (ó justo girar do mundo...), o segredo antigo contido em tabuletas de tabacarias e a metafísica dos chocolates.
Estou envelhecendo, e tenho sentido muito cansaço (por que meus olhos ardem tanto?).

inês, nascida no dia de são jorge, e meu aniversário é depois de amanhã.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

tarde manhã

Despedidazinha felina de um sonho tranquilo (espere que amanhã eu volto...). Espelho, café, cheirinho bom, céu colorido e frio.
Onde está o fósforo do fogão? Alguém dissera que fora gasto por Inês (a tão vergonhosa...).
Surge a mãe na porta do quarto, meia e chinelo, roupão. Com amargor e deboche, não ralha. O que é que Inês faz com esses fósforos? (Na certa, fuma. Maconha. Vergonha, absurda Inês).

Entre os avanços de horas,
(olhares noturnos do jovem-olhos-de-gato que estuda antropologia e deve ter 18 anos, cigarros roubados, lanches pendurados, trabalhos, distâncias, cansaços - por que meus olhos ardem tanto?)
Inês encostada no vidro do ônibus escutando um samba e contemplando a correria igualmente medíocre dos que vão e vêm. (Luiz Gabriel, não me cobre generosidade, logo você, tão cristão.)
* * *
Num pequeno silêncio de hoje a tarde (devagar, as janelas olham), entrou no ônibus uma mulher duns 40, 50, 60 anos, e o tempo silencioso durou um pouco mais que os segundos que lhe eram de direito. Trazia consigo o corpo daquela mulher o cheiro dum creme, uma loção, um não-sei-quê perfumado, que num tatear de narinas e lembranças me afogou
(em dias felizes na praia de Boa Viagem, em que a mãe cantava e carinhava, em que não havia nojo de nada e tudo era amor, sol quentinho, cheiro e barulho de mar e de mulher apaixonada, beijos na barriga e no pescoço, e aquele cheiro tão gostoso que vinte anos depois permanece tão forte: duas mulheres quase sem pecado.)
Meus tantos e tão ávidos olhares deram descanso aos olhos: inspirei e inspirei e inspirei todo aquele perfume de certeza e de infância. Quis encostar meu nariz e a boca, o rosto todo nas costas e nos braços daquela mulher antes que ela girasse a catraca, mas me detive por alguns milímetros e instantes, porque tudo o que eu buscava era éter.
(Foi como esmagar um pedaço meio doído, mas também foi como olhar pra sempre um retrato da infância).

inês.

terça-feira, 13 de abril de 2010

diárias.

07 da manhã (Galo cantô às 4, graças a deus), celular do progresso desperta meus sonhos confusos com um arranjo brilhante do Moacir Santos (daqui ha uns dias como alarme vai virar sinônimo de irritação). Banho (sempre). Pomada no machucado (às vezes). Pão gostoso e gordurento. Café. 400ml.
A espera ansiosa pelo ônibus que não vem não vem, só volta, trazendo trabalhadores de tão longe e tão já sem sono. Trocados. Espera, tem uma moeda no outro bolso. Pronto. (E agora, como voltar? Como pagar o almoço de R$2,50? Banco!)
Banco, banco, banco, aproveito e pago as três contas amassadas na minha bolsa. Oooh não! Vermelho, vermelho, vermelho.
(Pensar nas multas agora seria muito arriscado pra minha saúde).
Porra, como vou pagar os mil reais que já devo à minha mãe, à ex namorada e ao maldito banco?
O Cachê sai semana que vem, o projeto vai ser aprovado, a bolsa vai ser liberada, o devedor miserável que sumiu com uma grana minha daqui a pouco dá as caras, dia 25 a banda volta a tocar, dia 22 tem gravação, pra receber, quem sabe, em outro dia 22.
12h, almoço na casa da mãe da Silvia. Arroz gostoso, ovo frito. Salada!
Aula aula, ensaio, aula. 1h30 de ônibus apertado pra chegar de uma escola a outra, a 20 min de carro.
Dinheiro não. Beleza pura.
Viagem pra França em Outubro, Flauta Nova, Macintosh, Fusquinha bacana, dividir ap com gente jovem reunida: calma...
18h, banca de revistas, concursos públicos, siglas, siglas, o maldito direito empresarial. (Flávio, me empresta um real??)

inês, que quase surta e desiste.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

que deus nos ilumine, ou: morphine

Sou um fracasso nessa história de cuidar de mim e ter amor próprio, e acabo me jogando nuns chapiscados, como se o meu corpo - já não tão viçoso e já cansado de juventudes - tivesse que ser entregue em holocausto como pagamento por tanto imaginar mundos diante dos meus olhos e por desejar a vida com tanta sede.
Me sinto uma cachorra. E sim, tenho ódio dos homens.
Mas sobretudo ódio de mim, por ser vítima da minha própria monstruosidade, eu que sou perversa, eu que contemplo a beleza e a morte com frieza e suporto minha própria dor gratuita em busca de uma resposta do mundo à tanta paixão que explode pelos meus olhos todos os dias e que a qualquer hora acaba de entupir todas as minhas veias.

inês.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

a spark lost in the dark

Voltei a rondar sozinha pelas ruas, e vi que algumas ainda me trazem lembranças amargas, e que por uma ou duas vezes temi profundamente esbarrar com duas ou três pessoas que hoje não mereço ver de muito perto. Por um momento me peguei esperando que algum afeto de gosto forte inesperadamente surgisse de dentro da noite, e então chorei de raiva por querer tanto me sentir tão só e por buscar tanto alguma verdade no mundo.

(Me pergunto o que fazer com o grande buraco que criei em mim quando não tinha medo das coisas do amor, e se existe algum jeito de esquecer o pouco que aprendi sobre a beleza e a crueldade do mundo dos homens.)

Acontece que, andando entre os carros, as cores, os ruídos que de vez em quando irrompem no meio do silêncio noturno e as torres gigantescas da minha cidade time is so old and love's so brief, eu, que penso tanto e sempre, de súbito fui surpreendida pelo céu, pela lua e pela névoa por trás das árvores, e essa nova noite que invadiu a minha sugou meus pensamentos num ímpeto misterioso de libertação.

Assustado, meu corpo pôs-se a correr mais do que pôde, e foi como se se desobstruíssem todos os rios dentro dele. Saí correndo pela avenida, a moça correndo pela avenida, o rio correndo pela noite, o silêncio inundando minha cabeça, minha pele atravessada pelo mundo.

inês.

quarta-feira, 31 de março de 2010

menstruation times

Ah, mas eu adoro ser mulher. Depois de passar tanta raiva por ciúmes de cocota pra cima de mim (a esposa do vocalista da minha última banda deu chilique quando a gente viajou junto e por isso agora eu tou meio de molho com eles ô vontade de estourar uma pele rosada), por desesperos ridículos de marmanjos patéticos e babões que acham que eu caio sem querer no discurso porco deles, por não gostar dos meus pêlos de baixo e ter que passar 40 minutos na cera todo mês, por não aguentar mais ficar sozinha mas peferir ficar sozinha do que tão mal acompanhada, por fazer de conta que acredito em mais mentiras do que as em que já acredito, por não saber impor uma dúvida quando no meio desses babacas moderninhos que sabem nomes demais em inglês e precisam esconder suas fraquezas de merda atrás dos seus trabalhos até que bacanas mas no fundo de merda: ainda posso me embriagar na beleza das coisas, ainda posso ir pra um inferninho, berrar que nem louca e pagar de turista, ainda posso cospir no passeio, e, graças ao bom deus, sei que sou forte, que sangro todo mês, que posso parir uma pessoa, que posso de repente mudar pra bem longe e nunca mais ver ninguém que fale português e que essa sensação de preguiça dos homens amanhã passa e eu vou estar novamente como uma mulher qualquer que usa vestido e passa hidrante no cotovelo, que chora de amor e sorri quando vê bichos dormindo.

som: Nostalgia 77 Octet: Weapons of Jazz Destruction


inês, que escorre nervosa.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Encontros e translations

Nem tive a decência de perguntar se a brincadeira estava valendo e talvez já estivesse deixando-me escorrer displicente pra dentro de alguma das suas idéias, e agora bebo de você uma coisa tão nova pra mim que nem sei se de repente o que eu engulo é mais do que eu posso (posso?).
Não tenho o direito de culpar seus velhos atrelos pelos meus tão novos medos. Contemplo a coragem de viver e de me libertar que nasce desses novos encontros, saboreio a nova busca pelo que em mim era antigo e agora é infância e sorvo a sua beleza de corais frescos e estrelas do mar.
Eu sei - e é bonito demais pro meu coração não doer um bocado - que na praia ou no rio eu piso nas respostas que procuro, e que as perguntas, agora cristalinas, nesta idade se desfazem pra compor a beleza do mundo.
Eu sei - e haja coragem pra viver sabendo - que tudo é tão simples e tão sem palavras como uma manhã ou uma fruta mordida.

Inês.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Perdoe-me padre...

Ah, minha cabeça ainda rodando.
Jorge, o diretor supersensível e interessante que por longos anos de conservatório me Como que é uma palavra que quer dizer assim quando uma pessoa fica a espreita de algo, com desejo daquilo, até que fique pronto?
Me pediu em casamento.
Eu ri.
Pediu de novo.
Desssa vez eu chorei, mas ainda sim disse não.
Depois de tanto não, um dia me pediu um beijo.
(e depois de tanto não, um dia eu disse sim).

Acontece que o cineasta tinha que ir viver no estrangeiro, sentir um pouco da Europa, e queria ir com esposa e tudo.
De novo eu disse não.
Num mês ele estava casado com uma veterinária e se mudou pra lá. Quando me disse, chorou de raiva.

Mas na verdade, ela não era veterinária, ela era uma princesa linda. Uma fada. A princesa das fadas lindas. Quando os dois vieram de férias, meses depois, estavam em crise. Fizemos um trabalho juntos, eu e ele, e rondamos pelas cidades por duas ou três noites. Com beijo e carinho e sede.
Aí ele voltou pro longe.
Um mês depois, eram solteiros de novo, o diretor na Europa e a princesa das fadas no Brasil.

Ontem a vi na cidade. Estava linda como uma princesa das fadas, só que bêbada como uma princesa bêbada, e me chamou pelo nome e me abraçou com ternura. Eu não tive culpa se em vez de ela me bater, arrancar meus cabelos ela quis lamber o meu pescoço, morder o meu nariz e chorar entre os meus seios.

Não fiz nada de errado, ontem, mas sei que cometi um pecado.

Inês.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O blablablá das entranhas corroídas e a puta que o pariu

Antes de mais nada: Luiz, eu te amei um bocado. Que coisa olhar pra você agora tão se fazendo de menino, e isso não fazendo mais efeito nenhum no compassamento do meu coração!

Getúlio é o cineasta - meu caro! - que goza sobre minha caligrafia debochada e arranca de mim a estrela cintilante que derrama minha juventude pela noite.

Fabiano, querido, me desculpe por não te amar e por na verdade ter saído não pra comprar cigarros mas pra sumir. Aqui, te abandono.

Ricardo, seu sambista safado, essas brincadeiras nossas que nunca acordam - graças a deus! - alimentam um ritmo cada dia mais gingado nos sons que acontecem à minha volta, e eu poderia dizer que isso é amor, quisesse fazer de conta, mas é a mais pura malandragem assexuada e onírica transfigurada em som e em sonho.

Maestro desquitado, por favor, me desculpe os semitons fugitivos, e permanece dançando sobre a pureza eterna da mnha pele. Seu amor tão denso e macio (ternura) pelos meus intervalos e descompassos me desconcerta, e sobretudo me comove.

Moça bonita do vestido oriental e sapatos paulistanos, que passa olhando pra mim por entre as mesas do refeitório: -enfia essa buceta no seu cu, que tou com preguiça de me lascar.

Ó montes de coisas que finalmente se tornaram montes de coisas: não cabe nada aqui dentro agora, que íris cintilantes lambem meu corpo e meus silêncios todos.

Acho que estou apaixonada por outro.

Inês.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Fase Azul e Rosa

Dança sobre meu corpo o homem dos movimentos sonoros, e meus olhos sequer precisam estar abertos. Me alimenta com cores pelo nariz, pelos ouvidos, pela boca, pela pele. Aqui, sou mulher, e minha inquietações estão acampando num lugar muito mais fresco e verde e silencioso. Menino do canto, sabe que é sábio reverenciar com devoção o milagre bonito da vida. Passeando por mim, de perto e de longe, inquieto e inseguro, esses olhões buscando luz o tempo todo, vai acabar um dia se encontrando e gostando muito de si mesmo, não só pelo que está do lado de dentro da pele ou sai pelos dedos e pela boca, mas pelo que sai de todos os poros, e principalmente pelo que entra.
Nem todos os meninos só pensam em si, e, sim, eu acho isso muito mais bonito do que todo o resto das coisas.

Inês.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Desafogamentos

Querido Príncipe Fabiano, seu amor parece imenso, mas é ingenuamente desentoado...
Sinto muito, mas, ademais... Minhas orelhas não te pertencem também, e têm estranhado muito esse carinho tão desafinado e ardente. Meu primeiro maestro era um senhor militar que me ofertou mais do que eu esperava da vida, mas ao mesmo tempo de vez em quando me lambia as orelhas e isso me enojava um pouco. Eu não reclamava... Por pena.
(Pensa certo Inês, vê se não erra! Luísa! Luís! Gabriel! Elisa, Elisa, Fabiano! Pronto, guarda bem, Inês, não erra. Não confunde. Não esquece.)

Luiz, eu me lembro de você quando torço a minha roupa, porque sinto meus braços bem fortes, e sinto raiva também, porque vc me arranha por dentro, e eu acabo gostando disso de um jeito meio vicioso, ao mesmo tempo porque o seu corpo morninho e macio meio que me alimenta quando eu preciso.
Se bem que não, quase nunca é quando eu preciso. Sabe disso? Eu sei, mas não sei explicar não, por isso nem tento, que é pra não te aborrecer com as minhas próprias concavidades vorazes (ah, eu sei bem como elas doem nos outros).

Você é um alimento morno e macio que alimenta a minha fome.
(Infinito, pra dentro e pra fora.)

Inês, aqui no Pátio de São Pedro

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Dos duplos que não me pertencem

Enquanto as coisas todas acontecem – acreditei que precisava da sua explicação pros mil platôs – meu duplo mergulhado no piche busca o cheiro e a maciez de banana da boneca que se perdeu pra sempre...

Um outro duplo sumiu entre os abismos de corais e búzios, talvez um dia a gente ainda se encontre entre tambores ou ondas...

Outro está absorto na contemplação do mar imenso do Rio de Janeiro naquele apartamento imenso, vazio e cheio de coisas minhas, congelado numa posição já inatingível por meus olhares ou mesmo meus sonhos...

Outro ainda respira aquele cheiro de incenso, gelo seco, madeira e poeira dentro do teatro.

Outro se perdeu em histórias fantásticas que bem podiam se verdade, e espero ainda que sejam.

Outro sorve um leite morno ao som de cantos de amor e entrega, e se aninha em braços seguros, e contempla as cores da Floresta Negra.

Outros talvez sejam doloridos demais pra que eu me lembre deles.

Outros já foram completamente libertos.

Inês.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Despétalas

Sonhei que te embalava
em meus braços não finos-de-heroínas-espanholas.
Despertei sentindo seus olhos
passeando distraídos
nalgum sonho só seu.

Sonhei que te devorava
(mais com sede que com fome)
ao som de uma salsa.
Despertei.
E no escuro do quarto seu silêncio arrebatou meus desejos.
E um soluço silencioso quase explodiu meu coração antes que eu voltasse a dormir.

Sonhei que te traía
com flores brancas de pétalas macias.
Despertei.
E vi que tu já não estavas...

Inês.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Do não pertencimento a nenhum anjo

Querido, quero dizer que não te pertenço, muito porque estás longe, mais ainda porque o olhar, o sorriso e a temperatura morna do corpo de um certo Luiz Gabriel – que é o próprio Luiz Gabriel – me perfuram a ponto de eu não poder ser de ninguém, uma folha tão seca que se algum idiota tentar pegar vai esfarelar.
Como consolo te digo que sou burra, te digo que sou louca, porque sei que sou mesmo, e que jogo fora o reinado com que me coroastes pra me sentir folha seca, com a certeza que só os muito loucos tem das incertezas da vida.
Pertenço a alguns cantos do mundo que sequer me viram quando estive neles, e que só eu sei ou nem mesmo eu sei onde exatamente me doem. Pertenço a sonhos e a músicas que habitam certos lugares que sequer me viram passar, mas que se instalaram corrosivamente nalgum pedaço de mim que não alcanço com as mãos ou os olhos. Pertenço à música que ressoa dentro do meu corpo e que me despedaça com seu vício destrutivo, e pertenço aos pedaços que dançam ao som disto tudo que está perdido aqui dentro. Pertenço ao espectro branco das espumas do mar.
E queria muito, querido, mas não te pertenço.
Talvez mereça, mas não te quero, Caminho-De-Volta-Pra-Casa.
É tarde pra pertencer - talvez também seja cedo - porque agora já me doei inteiramente ao abismo acústico que se abriu em mim. Por ora me condeno a mãos eternamente vazias, e um formigamentozinho de insegurança torce pra que nada nunca me absolva.
Seja feliz como sou, folha seca que sou, louca que sou, perfurada que estou.
Talvez algum dia uma sobrinha não entenda o que os gatos todos da rua entenderão: eu te dizendo agora, como digo ou ouço sempre: por favor vá embora...

Inês.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

rosário

Dona aranha tece teias invisíveis, longas como míticas teias do tempo, e que dançam como as asas peroladas de um Dervishe.
Notas de piano são gotas.
Dona Inês dança no ar, submersa num sonho de luzes e névoas, e as teias todas da vida lambem seu corpo, dançando como longos cabelos de fios de cetim.
Notas de violão são pérolas.
Dona Leopoldina canta com a maciez de uma cera quente só que morna escorrendo numa pele molhada, e a sua voz parece um passarinho voando por outros poemas, e o seu canto parece um conto sobre dias do passado reverenciados por sua mágica dolorida e cintilante.
Notas que cintilam... Notas são lugares.
Dona Inês delira entre gotas e pérolas, luzes e cetim, e a baranguice do seu próprio canto que expolode violentamente perfurando o ar transforma-se numa balada russa, açucarada e tirana.
Nesta noite os anjos virulentos que beijam meu corpo me prendem neste sonho em que notas são asas e melodias pinceladas impetuosamente em telas brancas.
As notas me atravessam como névoa a poros. As cores me atravessam. As pinceladas. Os anjos.
Atravessada por lugares, danço etérea com roupas de Dervishe sobre grandes asas de cetim.
Dona aranha dança...
Leopoldina tece...
Eu canto.

Inês.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Desaparecidos

Entre as fotos de pessoas desaparecidas deste mês que estão nos ônibus da cidade está a foto de um moleque miudinho de 12 anos. E foto de gente desaparecida sempre dá aquele nó na garganta: a certeza de uma morte terrível e a esperança de uma fuga...
E esse moleque me chamou especial atenção porque vários passageiros comentaram que o conheciam - a professora, o vizinho, o colega...
Dizem que era tão fraquinho que "com força se quebrava o bracinho dele".
Dizem que morava com a avó... E que batia nela. Que ia a escola mas desrespeitava todos os professores. E ninguém do governo sabe o que é ser professor da rede pública e viver entre diferentes formas de violência, desrespeitado pelo próprio governo (com um salário 200 vezes menor que o de um parlamentar) e desrespeitado pelos alunos.
Dizem que o pai fora assassinado, e que desde então ele andava pelas ruas armado, afrontando a todos.
Gente assim não dura muito, e certamente o bandidos do bairro deram cabo dele. Não precisa nem dizer que essa história toda tem ligação com o tráfico de drogas.
 Vejo a foto dele todo dia dentro do ônibus, e seu olhar de passarinho me acompanha quanto vou pra escola e quando volto pra casa, e eu tenho a certeza de que está morto, com o bracinho quebrado ou não, e que de certa forma toda a sua vidinha de 12 anos hoje seja para a avó a simples lembrança de um pesadelo.

E me pergunto como fazer pras pessoas perceberem logo quantas coisas estão erradas: a lei serve a quem tem o poder e o desejo de manter o status quo. Os legisladores, delegados, juízes, não têm a menor noção de como seu trabalho interfere diretamente na sociedade, e nem sei se compreendem a dimensão e o papel que exercem nessa teia burocrática do Estado. Inclusive acho que tudo é estruturado justamente contando-se com essa desarticulação de responsabilidades, numa coisa grandiosa cujas conexões ninguém consegue enxergar e controlar - e quase sempre quem teria mais condições tem menos interesse, que é o que acontece com a maioria das pessoas em condições econômicas e políticas favoráveis.

Nossa organização estatal quase ninguém sabe exatamente como funciona. Das nossas leis, a grande maioria da população não conhece nem uma ínfima parte, enquanto alguns poucos conseguem sempre maneja-las a seu favor. Mas todos estão submetidos igualmente a esse sistema, e não podem sequer alegar que desconhecem a lei. ("A luta pelo analfabetismo confunde-se, assim, com o fortalecimento do controle dos cidadãos pelo Poder. Pois é preciso que todos saibam ler para que este possa afirmar: ninguém deve alegar que desconhece a lei." Levi-Strauss, Tristes Trópicos, CIA das Letras). A que se presta o Direito mesmo? Justiça?

Inês, sentindo que não conseguirá não mudar os rumos deste blog.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Inês de todos os santos...


Uma das coisas que mais faço é viajar. E sozinha (nem sempre por opção, quase sempre por falta de opção).

E a coisa mais louca, mais linda e mais deliciosa é que a cada viagem me surpreendo com o deslumbramento que o mundo provoca em minhas retinas nem tão fatigadas, com a vontade de explodir junto com as coisas que eu vejo, e com a própria sensação de estar verdadeiramente explodindo e de repente vendo tudo mais do alto e ao mesmo tempo mais de dentro.

Dessa vez fui parar numa praia, buscando um pouco de beleza e um bocado de isolamento, pra pensar em questões importantes que minha vida tem me apresentado.

Mas, como sempre, não pensei em nenhuma delas, porque me vi diante de uma perspectiva ainda maior sobre as questões realmente importantes que a vida tem me ofertado, que estão sempre aí, diante do meu nariz, e foi preciso um mergulho bem profundo pra enxerga-las em sua cristalinidade, e pra aceita-las em sua rudeza.

Conheci o Dé, uma figura que me mostrou uma perspectiva totalmente diferente desta que me rodeia e que tantas vezes me incomoda. Que não sabe nada sobre o estruturalismo nem sobre as leis de Newton, mas que escuta o vento e sabe se vai chover. Alguém que olha o mar, e em vez de enxergar simplesmente uma maravilhosa linha do horizonte enxerga uma superfície irregular e inconstante que leva ao mundo subaquático, mais colorido e rico que imaginamos e muito mais vasto que este mundo deslumbrante daqui de fora, com as mesmas montanhas e vales que aqui vemos, só que com seres fantásticos vagando em todas as direções. (E aquele silêncio...)

Os peixes são pássaros com uma permissão maior pra serem pequenos ou grandes.

E é uma prisão voluntária essa nossa de achar que a natureza é um espaço exterior aos seres que a habitam e onde nós, homens, construimos cultura, e de achar um tanto de outras coisas pra separar o que na verdade é uma coisa só: o eu, o outro, o mundo, o bom e o mal, o passado, o presente, o futuro, a alma e o corpo, o deus e o diabo, a verdade e a mentira, o tudo e o nada, o agora e o sempre...

(Alguns homens já sabiam das coisas muito antes de uns europeus começarem a sair invadindo o mundo sem querer muito trocar nada com ele...)

(Mas alguns homens ainda sabem trocar...)

O Dé, na minha busca pela identificação de um arquétipo protetor trazido de terras distantes, me fez perceber a grande resposta nos búzios que amoldavam minhas pegadas o tempo todo sem que eu me desse conta.

(Ó beleza daquilo que me emudece!)

O Dé parece o fruto de um sonho, uma aparição, áspero e doce como fruta madura. E o tempo todo sujo e o tempo todo limpo. Mas limpo de verdade, limpo como um peixe livre, limpo como um santo, limpo como um som, simplesmente limpo, de pele escura e cristalina.

Não sei se lhe ofereci algo em troca. Talvez o silêncio de quem descobre que não sabe nada. Talvez o silêncio de quem faz uma prece sem nomes. Talvez o silêncio de quem escuta o canto de uma sereia. Talvez o silêncio de quem se desconstrói perplexo, e com humildade se deixa espalhar pelas ondas. Talvez o silêncio em gratidão por descobrir um ofício que a cada dia se define mais por, simplesmente, viver.

Dé... Nesses dias de barulhos de ondas (ou de pedras?), de histórias de longe, de sonhos compartilhados e tesouros revelados, de gargalhadas trazidas pela doce fumaça da Bahia, de pequenas sabedorias e grandes incertezas (como terá morrido o turista que se afogou naquela tarde?), nós trocamos uma linda amizade, cristalina e silenciosa como cada gota que preenche esse fantástico universo submerso, pai de tudo o que existe.

(Acho que nos trocamos, irreversivelmente, seguindo o belo curso de tudo o que existiu nos últimos bilhões e bilhões de anos.)

Inês mais-que-nunca Paraíso.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Bertolucci e outras coisas nossas. Ou: Elegia.

Nesses mais ou menos dez dias fui
rainha
princesa
bruxa
gata de Schrodinger
vadia
bailarina
boneca
mulher.

Nesses mais ou menos dez dias fui sua.

But I'm Gonna Make You Lonesome When You Go.

Inês.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A mulher e o monstro

Não sou uma mulher a procura de um homem (estou farta de orelhas e umbigos e olhares).
Mas sou uma mulher, sem nada de donzela nem de carente (sou só...).
Não tenho muito dinheiro, nem muito menos aqueles braço finos e fortes das minhas heroinas de filme espanhol... Tenho sangue. Tenho raiva (tenho medo).
Tenho também a certeza de que a vida é um sopro
(e de que vinte anos não são mesmo nada).
Tantas vezes olhei pra você procurando alguma coisa que não encontrei. E tantas vezes olhei pra qualquer lugar ou qualquer pessoa procurando você (com as coisas todas que você é, e sem as coisas todas que não encontro quando te olho).
Sou uma mulher e te procuro (com orelhas, umbigo e olhares).
Sou uma mulher, e dentro de mim mora um monstro que te devora.
(Sofro de um disturbio emocional: compulsão passional, com direito a bulimia amorosa.)
Sou uma mulher que te procura quase com fome, e, quando se dá conta disso, meu monstro começa a devorar a si mesmo pra te salvar.

Que maneira de querer, depois de tantos Gabriéis, o mesmo de antes!

Inês.

domingo, 23 de agosto de 2009

O triste baile das horas

Desfilam zombeteiras entre um sonho e outro
as horas
ninfas perversas e cheias de caprichos
(as horas são mulheres...)

Riem do quê?

Bailam
encenando desleixo
e fogem sorrateiras
enquanto sorvo desilusões.

Triste e capciosa dança
a das horas.
(tristes horas, só por serem horas.)

Inês.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A mãe de Inês Paraíso

A mãe de Inês é linda, e ninou Inês cantando Chico Buarque.
A mãe de Inês é uma moça romântica que largou tudo pra se dedicar à família, e que trocou a proteção do pai pela proteção do marido.
A mãe de Inês foi morar fora pra acompanhar o pai de Inês quando os dois se casaram, já que ele tinha que fazer doutorado no estrangeiro, e pegou o diploma por procuração.
A mãe de Inês diz que nunca fumou maconha, teve poucos namorados, daqueles de pegar na mão e pronto, e tinha hora - bem cedo mesmo - pra chegar em casa.
Anos depois, quando Inês já não só comia sozinha mas podia cozinhar algumas coisas sozinha, resolveu voltar à Universidade e somou ao currículo mais uma graduação, e com duas habilitações.
A mãe de Inês é esforçada e organizada - arruma todas as roupas, discos e livros todas as semanas.
A mãe de Inês, assim como o pai de Inês e o irmão de Inês, não almoça sem assistir Video Show ou Estrelas, e não faz nada no horário da novela das oito. Inês não consegue aderir a esse hábito, porque odeia quando o dinheiro lhe diz explicitamente o que vestir, o que comer ou como pensar. (Inês acha a televisão muito agressiva).
A mãe de Inês acredita no American Way of Life, e queria que a filha tivesse tido alguns poucos namorados, daqueles de pegar na mão e pronto, e que lhe contasse todos os acontecimentos banais da sua vida de jovem ajuizada e encaminhada.
Inês também não consegue aderir a este hábito, porque detesta o moralismo cristão de quem sequer frequenta a missa (e de quem frequenta também!), detesta se comportar como os outros gostariam que se comportasse simplesmente pra que ninguém se incomodasse com sua existência e para que fosse aceita como mais uma das tantas moças jovens ajuizadas e encaminhadas que a mãe queria - de um querimento amiúde declarado - que ela fosse.
A mãe de Inês diz que a vida da filha é uma perdição.
E que não é possível uma pessoa viver com menos de 2 mil reais por mês.
(A mãe de Inês recebe menos de 2 mil reais por mês, mas tem um bom marido, e um digno trabalho de professora de colégio.)
Todos os dias a mãe de Inês chora, e diz que se sente muito sozinha porque ninguém da casa gosta de se dedicar à família.
(Os momentos em família são geralmente na frente da televisão)
Inês sente muito pelo fato de a mãe ainda acreditar em ilusões comerciais, por não aceitar as diferenças que vê na filha e nas outras pessoas todas ao redor dela, por ser romântica, sonhadora, tapada, infantil, extremamente carente e egoísta, fazendo-se de vítima o tempo todo por não ter uma família ideal.
Inês sente muito por não ser ideal.
(Mas Inês gosta muito de ser ela mesma, e nunca vai abrir mão disso pra ser simplesmente ideal.)
A mãe de Inês diz que a filha deveria ir a um psicólogo.
Mas a filha está muito bem com suas próprias paranóias, e acha a maioria dos psicólogos incapazes de entender o que sente, simplesmente por também gastarem seu tempo em frente à Rede Globo, por citarem sempre frases prontas de livros de auto-ajuda, por nunca terem visto e lido e estudado o que Inês estudou e por um milhão de outros motivos que Inês tem uma preguiça enorme de escrever agora.
Talvez a mãe de Inês devesse consultar um psicólogo, que lhe dissesse o que ela quer ouvir e a ensinasse a não ser tão criança e tão insatisfeita com o fato de a realidade ser tão diferente das novelas das 8.
A mãe de Inês já quase morreu uma vez, de uma morte muito ruim mesmo (teve um troço na cabeça, pesquisou e descobriu sozinha a doença que os médicos todos uns inúteis não descobriram, fez uma cirurgia e hoje está muito bem, obrigada, relatando a todos os sufocos passados).
O grande problema é que ela pensa que ter sofrido tanto é o que a torna uma heroína.
O pai de Inês vive quase morrendo (muitos enfartes, câncer, etc...).
Inês está familiarizada com hospitais, com chantagem emocional, e com pessoas que pensam que é o sofrimento que faz os heróis. (O Pai de Inês já escreveu 6 livros excelentes).
(Inês não está familiarizada com a morte, isso não. Mas, afinal, será que alguém está, de fato?)
Esses problemas de saúde todos da família acabaram traçando muitas das condições de vida da família de Inês: Inês não pôde interromper os estudos para uma experiência internacional (sem custo algum para quem quer que fosse além da própria Inês) porque tinha que se formar logo, já que há qualquer momento seu provedor material poderia partir desta pra melhor. Esta, aiás, foi uma revelação muito dramática feita à Inês por sua mãe, em forma de chantagem emocional.
(Mas Inês pensa que este não é o melhor jeito de se viver, porque há todo momento um monte de gente nasce e morre, afinal...)
E o pior de tudo é que a mãe de Inês tem pânico da morte, têm pânico de qualquer perda, principalmente do marido, dos filhos e dos outros parentes mais próximos.
A mãe de Inês também tem pânico da distância.
A mãe de Inês tem pânico da solidão.
A mãe de Inês parece que escolheu ser assim tão infantil, e não passa um segundo sem reclamar da vida, sem fazer cobranças, sem pintar as pessoas como se fossem monstros ou sem se fazer de coitada.
(E isso enlouquece Inês!)

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