quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

i can´t breathe

depois de muito tempo esperando algum retorno de quem devia estar me orientando, percebo, então, que, desde o início, tal orientação nunca viria. mas não bastava que eu soubesse de antemão que não devia estar esperando nada: a vida quis que eu esperasse com fé, até que as desilusões atropelassem-se umas às outras e eu enfim me desse conta de que estou eternamente terrivelmente sozinha pra sempre, e não há nada que eu possa fazer com relação a isso.
aí eu tentando me libertar do ego começo a perceber que o problema tá comigo. como se alguma maldição, talvez mesmo auto-maldição-pós-trauma, quem sabe...
ou o amor não existe.
depois de muito tempo esperando alguém que se dispusesse a trocar comigo algum tempo e algum espaço de vida, ou de amor ou de beleza, percebo, já desesperosa, que tal partilha talvez nunca venha, mesmo. mas não bastava que alguém um dia me dissesse olha, você é infértil, você não nasceu para conviver nem construir nada que dure mais que quatro meses com ninguém. foi preciso que a minha carência fosse tamanha e que me cegasse e me fizesse acreditar estar construindo alguma coisa até perceber que nada nunca existiu de fato entre mim e ninguém. só ilusões, frustrações, esperas crueis, confusão.
(o amor não existe)
e, de repente, tudo de novo. flerte, corações, desejos, chamados, assédios, agrados, promessas, pedidos (ilusões, ilusões, ilusões), e eu percebo já de cara que isso tudo me dá nojo, o desejo dos outros me dá nojo, o encanto dos outros me dá nojo, me dá medo e me dá nojo, porque eu tenho um oco podre dentro de mim, um vazio que espanta qualquer um que se disponha a conhecer.
aqui, nada brota. só eu, só, a minha solidão, as minhas toneladas de desilusões e sonhos mortos, a espera por frutos que nunca nunca brotam, meu medo, e agora também meu nojo.
não há espaço pra mim no mundo. acreditei por anos que pudesse haver a possibilidade de construí-lo, mas agora me dou conta de que tudo sempre é em vão e eu nunca chego a lugar algum, só rodeio, desejo, atraio, persigo, mas no fim, não há quem me acolha, e não há quem me adentre.
o amor não existe pra mim, e talvez nunca tenha existido (ou estarei pagando até o fim da vida por ter abandonado quem um dia me amou e se abriu pra mim? eu já me arrependi. eu já sei que não se joga uma pessoa fora).
só acordos, conveniências, aparências, distrações, aproveitamentos, e descuidos, desprezos, vazios.
o mundo é um lugar incrível, mas já não faz o menor sentido habita-lo tão só.

inês, só, como sempre, e sem saída.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

desistência

eu nunca tive disposição pra amores sem asas.
mas depois de alguns amores doentes, covardes, egoístas, desamores - dos que tentam sempre levar alguma vantagem, seja me devorando, seja me usando e enganando - achei que talvez fosse um bom momento pra um pouco de calma, paciência, e mesmo uma certa frieza, quem sabe. pras coisas miúdas que demoram muito a crescer terem tempo e espaço pra começar a brotar. no entanto, encontro sempre pessoas tão indisponíveis, tão indispostas a se entregar ao risco das coisas ainda não estabelecidas, a perder tempo juntos, a dar um tempo da correria individual e experimentar alguns pedaços desse mundo tão grande, a compartilhar um pouco de nada, de silêncio, de sonhos, de medos, de bobagens e risos...
não que eu queira o abalar de estruturas que eu tanto perseguia antes, mas eu preciso que alguma coisa se desconstrua.
os homens... ou querendo bancar o esperto, tendo muitas mulheres e planos e projetos, ou então simplesmente elegendo uma mulher que consideram adequada pra preencher um posto limitado nas suas vidas tão importantes. o resultado é eu ficar num sobreaviso constante, uma sensação de descarte iminente de uma relação que nunca chegou a se construir, porque afinal ninguém se dispôs a abrir mão de nada pra negociar uma vida um com o outro.
sempre assim, mais do mesmo, quase bom e quase lindo, mas cuidado que não é pra valer.
com as mulheres a coisa se dá tão diferente... somos inconstantes mesmo. eu, por exemplo, desejo a sorte de um amor tranquilo, manhãs entre lençois, tardes olhando o mar, ou um bicho, quem sabe, um poema, pensando sobre um problema entre a verdade do universo e a prestação que vai vencer... desejo uma espécie de lar, que pode ser inseguro, conflituoso, hoje tem, amanhã não, depois em dobro, mas que tem alguém, que me escuta e que também quer ser escutado, e que experimenta comigo os modos como nossos corpos, e vozes, e silêncios - e livros, e músicas, e lembranças, e projetos - constroem um amor.
ao mesmo tempo, duvido muito de tudo o que é certo, de tudo o que é garantido, ou fácil, eterno, previsível. alguém que segura as pontas o tempo todo e nunca não sabe o que quer, nunca discorda de mim, me parece uma roubada, e é por isso que certas pessoas incríveis nunca conseguiram entrar no meu coração pela porta que me desmonta. solidão, ainda que do avesso. talvez eu um dia me arrependa. eu já me arrependo. mas coração é terra em que não se anda. eu desejo o infinito.
as mulheres que eu amei talvez amassem demais, mas talvez precisassem de tão pouco, mas de um modo - como é possível que eu não tenha reconhecido? - quase desesperado, que eu sempre fugi, insensível. no fundo, sempre era questão de amizade, carinho, confiança na incerteza, tempo (e espaço).
ou seja, o mesmo que eu. só que reverso. (talvez eu um dia me arrependa. eu já me arrependo.)
mas então não sei, tem coisas energéticas cósmicas, físicas, espirituais, que pra mim só acontecem entre um homem e eu, e isso me deixa inclusive mais alerta, pra não deixar desencadear isso tudo com alguém que não está disposto a compartilhar um pouco mais que alguns sábados, uma cama, alguns fluidos...
estar alerta cansa, e estar sozinha também.

inês, meio cansada da vida.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

lê e perde

quanto mais aperta mais ansia mais dispersa arde o olho arde a mente agoniza grifa-copia repete a linha pergunta à linha e uma pausa pro café uma pausa pra unha uma pausa pra pele uma pausa pra formiga uma pausa lenta interminável e aflita pra cada gretinha da janela uma pausa pro buraco e o buraco engole o texto e o medo engole o texto e a vida a verdade do universo a prestação que vai vencer o e-mail da avó a notícia da tortura muitos tiros muito ódio o nascimento de um rinoceronte albino a fotógrafa que captou a energia tudo engole o texto e o texto chia chia e as linhas se repetem se copiam chiam chiam e os dias fogem todos e o amor o caos as estrelas a madrugada a sujeira brincam perversos nesse quarto empestiado de nervo e cigarro e chá biscoito queijo amendoim lasanha pão laranja suco pipoca manteiga gordura sal e medo segredo torpedo desprezo desorientação e pedidos perdidos e negados e silenciosos nãos e o buraco engole tudo e o sono engole tudo e o medo engole tudo o amor engole tudo a palavra engole tudo a manhã engole tudo o sonho engole tudo o tempo engole tudo e tudo muda tudo dança tudo grita chia chia e amanhã é um novo dia e o texto me espera o texto me desespera o cigarro me alivia o buraco é alegria o amor me acelera e venha logo a primavera venha logo a nova era venha logo o fim do mundo venha logo o fim de tudo venha logo o fim do texto o fim do medo o fim do buraco o fim das pausas eternas pra tudo venha logo um novo tempo um novo medo um novo amor um novo texto novos olhos novos universos novas cartas e notícias e mensagens e palavras e prazos e sonhos.

inês

domingo, 14 de setembro de 2014

primavera e cigarros

mundo cão, e eu não consigo viver sem fechar os olhos, ou sem olhar nos olhos (aquelas coisas que parecem estar lá no fundo, ou talvez refletidas na superfície brilhante que também me olha - mas não sei o que vê, não sei o que procura, o que pensa, e nem sei mesmo se me vê ao menos um pouco, não sei se me quer, não sei o que quer) que ainda não sei se poderiam se fechar às vezes, fosse por sono ou fosse por fé
mundo bom de acabar, e eu não consigo escolher ser tomada pela espera de qualquer espécie de golpe terrível que não vai me encontrar em esquinas escuras - porque nunca estou só -, mas que da noite pro dia pode me atingir profundo de frente - porque, afinal, sempre fui só -, e sugar de novo a face florida que eu tive coragem de permitir que me preenchesse por dentro (quando comecei a comer um pouco do monstro que antes me comia). o que diabos protejo tanto?
e ao mesmo tempo - mundo velho - sou eu quem espera, sou eu quem pergunta, eu quem deseja, eu quem tem medo, sou eu sempre em tudo?
chega de mim! que o mundo é grande, é muito maior do que eu, e que toda a vida possível pode haver lá fora de mim - perto, longe, dentro, fora -, e que se dane esse devo ou não devo, suporto ou não suporto, mereço ou não mereço, quero ou não quero: chega de mim, o tempo todo. o eu que olha e que escuta já me basta, o eu que sente e pensa que sossegue um pouco, porque já sentiu e pensou além da conta pra quem mal começa a abrir-e-fechar os olhos, pra ver lá fora e não pra ver aqui dentro, mas pra não-ver lá fora, mesmo, e só ser.
(doeu, não era pra ter doído, e não era pra eu ter sentido. se eu doar, voa lá fora, vive leve, e bem maior)

inês.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

de volta, no meio do caminho

zero ideias e tantas emoções nesta semi-babilônia, caminho dos malucos, dos bandidos e das joias, cemitério debaixo de nós que passamos olhando os becos laterais, e árvores preciosas lembrando os correres mais lentos do tempo, e que mundo de encontros... pra trás nada.

inês.

domingo, 22 de junho de 2014

sonho III: folhas

duas folhinhas pequenas (pros meus olhos). quais?
olhei pro meu pé de folha-da-costa, e tudo fez sentido. foi só colher as mais novinhas.
(só que não eram elas não. eram as vinca-de-gato que estavam do lado, agora eu sei)

fumei, a maconha. disse pra um irmão que tinha fumado, ia dizendo enquanto descia de um carro, e expliquei que não tinha me sentido mal.

meu pai... entre os arbustos... me disse que eu também precisaria "dessas duas aqui". olhei... eram como ramas de visgo, penduradas cada qual em seu pé, mas bem próximas uma da outra. apareciam como dois cachos de folhinhas pequenas, uma delas talvez com tonalidade lilás.
mas faltou-me a disciplina pra prestar atenção nas mensagens e recusar aquilo como um simples sonho louco. eu podia ter perguntado o nome delas, pelo menos. ou em que me serão úteis.
o pior: talvez eu tenha perguntado tudo, talvez meus protetores tenham me revelado os segredos que só ali me seriam revelados...
mas eu não prestei atenção. levei o sonho na brincadeira, como se sonhar fosse simplesmente um momento de repouso e de descuido, como se eu não estivesse ali diante daquilo que quando estou acordada é invisível, e em meu sono se insinua na medida em que mereço conhecer.
(quem sabe as reconhecerei quando estiver enfim desperta)

aproveitar mais essa vida, inês!

seguro-desespero

das coisas que se movem não tenho tanto medo. nem das coisas que se transformam.
tenho medo das coisas que me aprisionam, venham de mim ou venham de fora. é o que me angustia, é uma bola de neve espessa e lenta, viscosa, é a natureza de um mal que não me cabe mais. quero sair daqui, e talvez seja preciso deixar que tudo passe por mim, entender talvez com o corpo que tudo flui, tudo é haver, a vida passa e o que quer da gente é coragem.
estou tranquila, num certo sentido emocional, as frustrações amorosas, familiares, sociais, dando lugar a uma - ainda meio vacilante - paz, uma coisa tão resignada e ao mesmo tempo tão transbordante de desejo, alegria, vitalidade, levezas... só que nada disso anda sozinho, mesmo, e é por isso que tenho fumado tantos cigarros, e me recusado a enfrentar a ordem do dia sem que o medo de um amanhã tão próximo me assombre. mundo cão, também, é claro, mas o que fazer disso? sei o que é contemplar a vida com amor, mas não é pra voltar ao conforto de antes que atravessei esse caminho tão pesado de agora há pouco. preciso restabelecer alguma fé, e sobretudo alguma coragem, mesmo. enfim, é claro que os caminhos são infinitos, mas já me habita um desejo tranquilo e amoroso - como o ninar da minha mãe - de escolher um dos tantos nos quais pude escutar o bater do meu próprio coração e, enfim, segui-lo.
perdoei e pedi perdão a quem eu queria... e já deu tempo de reunir os esforços possíveis pra experimentar o novo. com muito mais cautela e muito mais amor que antes. talvez um pouco menos de paixão. talvez não.

inês.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

irmãos

uma melancolia me abraça logo de manhã, como se eu tivesse sonhado a noite toda com uma ausência, com todas as ausências que de repente me doem, e a saudade então parece querer tornar-se um fel.
aí eu desisto do dia, recolho-me entre cartas, nos buracos intermináveis e enganosos, leio meia poesia do pessoa, e não consigo fazer mais nada. como se ninguém nunca mais pudesse me amar como nos amamos, e como se a partir de agora viver fosse um eterno lamento pelo passar dos anos, pela distância daquela alegria explosiva que tanto compartilhamos.
mas eis que alguém me sopra no ouvido que a lua está linda, que a noite existe tão viva quanto antes, tão noite quanto longe, e que cada segundo é uma nova explosão deliciosa de futuro e de amor.
saio, como antes... a ver.
e a saudade e a ausência transformam-se de amargas em doces lembranças à medida que vou percorrendo aqueles lugares que antes habitamos juntos de mil formas. como estará o zé? não tenho notícias.
e... tão logo se dá o primeiro encontro que a noite me reserva, abre-se o mundo, e meu amor transborda. daqui pra ali... uma cerveja... acolá, alguns abraços... e eis-me numa festa linda, com gente linda, num lindo quintal ouvindo lindos poemas e lindas canções... tudo novo, como se a juventude dos trinta-quarenta-cinquenta anos artísticos-políticos me esmagasse, ou antes me abraçasse como irradiação poderosa e linda de amor, de beleza, de sonho, de vitalidade e consciência.
eis aqui, mundo, um bocado de coragem.
eis aqui, tempo, um pouco de amor e de fé.

eis aqui, inês, um punhado dos seus lindos, novos e velhos amigos, que vão aparecendo no quintal no transcorrer de uma festa repleta de amor e de luz. e, quem diria... samba.

inês, corajosa, porque entre irmãos.

domingo, 8 de junho de 2014

sem casa

fui lá de novo. banhar-me de luz. e dói pra caralho a saudade daqueles dias de risos explosivos, de olhares e danças provocativos, e da doçura ácida do som que se fazia ali. o lugar ainda está vivo, ainda é lindo, mas guarda com certo constrangimento a lembrança de tempos artisticamente tão gloriosos que só quem experimentou vai saber o que foi.
e assim... sempre tem aquela presença maliciosa entre os que ali voltam tentando reencontrar algo daquele ar intenso e precioso de outrora. talvez sintamos pena por não sermos mais quem éramos, pela cena toda ter esfriado, por estarmos em tempos mais ordenados, contidos... quem sabe.
eu mesma, com muito pesar, repeli o ar de desejo galante que me atingiu.
ah não... não quero mais. já não me falta coragem, mas falta energia, falta sobretudo fé.
sinto nestes novos tempos uma onda tão forte de desconsideração, descompromisso, superficialidade, desvalor, que inclusive o próprio amor me parece mais precioso ainda. (quem sabe?)
não era tão assim... porra... troca-troca não é a arte do encontro.
se for assim eu dou mais certo é sozinha, mesmo.

inês

sábado, 7 de junho de 2014

para isa

peguei hoje em você, pelo lado de fora, pequenina.
venha logo, venha em paz, que esse mundo é bem cão mas é lindo a fuder.
deus abençoe a sua chegada. que me assusta e me encanta como uma surpresa enorme e acertada.
oxum te traga, yemanjá te empurre, omulú te cuide, ossain te abençoe, oxumare te crie, oxóssi te faça.
oxalá te proteja, ogum te guie, oyá te fortaleça, nanã te nine, xangô te oriente.
exu te mova.
pode vir, te esperamos com amor.

inês (para isa)

voando e por fora

hoje falaram seu nome na mesa e olharam pra mim.
como podem eles saber do nosso amor que só se comunicou ao mundo num sonho que tive?
estiveram eles comigo quando esta noite agora voei num avião pelo lado de fora?
saberão que hoje pela manhã esperei ansiosa e fiel que você entrasse pela sala?
mas seu nome foi tão surpresa e foi tão doce. sorri por dentro.
sei lá pra onde estou indo, pra tão longe e nem sei por que tempo, e eis que você vem pra onde moro, se adapta a meu lugar enquanto nem estou por aqui.
eu nem sei se voltaria, mas agora... voltarei? pra ver-te, definitivamente olhando noutra direção? por que fazem isso comigo? devo sonhar contigo agora?
viajar, sonhando? voltar? terei volta? vôo, e talvez volte logo, pra cuidar do gato. vôo, e talvez me perca noutras solidões.
(a minha glória é essa: criar desumanidade, sem acompanhar ninguém)
mas que não brinquem comigo. que os santos me sejam um pouco fiéis...
pra que eu vá em paz... me esqueça que enfim você veio, que vai perguntar por mim tão logo eu tenha partido. pra que eu pense que nada saiu do normal. pra que eu durma e sonhe lá longe pensando que ninguém nunca disse seu nome olhando pra mim.
mundo injusto.
te quero.  mas deus sabe o que faz.

inês.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

dos medos que geram amor. ou: dos mestres, com carinho. ou: obrigada, deus.

eu sei o que é ter um mestre, apesar de não saber ainda ser discípula como gostaria.
as inquietações carinhosas com que fui amamentada tornaram minha vida mais especial e linda já no primeiro instante no colégio em que, fugindo de uma surda autoridade institucional, intramuros, encontrei meu primeiro maestro, que sem grades, sem horários, notas, pagamentos, fez-me abrir em admiração a um mundo que então se ofertava, mas do qual eu só distinguia sobras. e, como um cristal magnético, atraiu minha fé, minha confiança e minha plena dedicação à sua honrosa presença. mas fosse apenas admiração, amor, por sua figura, o desencanto teria sido próximo. o que ele alimentava em mim era um amor pela música, aquela que eu tinha aqui dentro, mas sobretudo, aquela que ainda estava lá fora.
eu era bem jovem e já sabia o que me prendia ali: uma fonte de luz que não me dominava, não me assustava, não me subjugava, mas sim me preenchia, me alimentava, como se precisasse que eu crescesse para que ela mesma fosse maior.

foi ficando mais fácil reconhecer os mestres da minha vida, e lamento que não os tenha reconhecido todos, lamento que não tenha passado por experiências suficientes ao seu redor, mas percebo hoje, depois que alguns outros seres iluminados ampliaram meus vôos, que é mesmo propriedade dos mestres querer que você vá embora, que procure outros, que não esgote suas forças diante de sua luz. eles fazem você querer o mundo, e seu desejo se encoraja com suas orientações.

muitas vezes há uma certa dor nessa coisa de mandar você se afastar de certo modo, ir buscar luz adiante. pode ser sem querer, e envolve uma rejeição necessária, inconscientemente forjada pra que se rompam cordões. meus mestres nunca admitiram cordões, quando eu muitas vezes criei e me agarrei neles, e me parece que quando eles sem se dar conta, iam nutrindo suas amarras, eu mesma estava preparada pra cortar com violência os laços que nos limitariam. o desapego cortava correntes, e, ao mesmo tempo, os caminhos da vida sempre reequilibraram as coisas de modo que logo era possível estabelecer novas relações e trocas, confirmar a admiração, reforçar os cortes, desfrutar dos vôos.

bem... o primeiro deles era bem velho, falava como meu avô. me fez ver o mestre em meu avô, também, e me acompanhou por anos, até fazer com que eu quisesse outras experiências musicais-afetivas-pessoais. me chamava de deusa, e me fazia estudar como o diabo. dizia com a voz e a disciplina de um oficial aposentado: ¨feliz do mestre cujo aluno ultrapassa¨, e ¨errar é humano, mas quem erra demais é burro¨. dizia que uma das coisas mais importantes do mundo era o ¨brio¨ da pessoa, e eu ao mesmo tempo deliciosamente escutava que o mais importante era o ¨brilho¨, o que sempre fez o maior sentido, mesmo.

teve outra, que por apenas três ou quatro anos permitiu-me os mergulhos poéticos até então desencorajados pela família e pela escola. ela era terrivelmente mulher, e me amaciou um pouco, tendo em troca sorvido minha rebeldia ácida.

depois teve aquele... menino... e que por muitos anos foi um segundo pai, mais honesto com relação ao risco que é viver. era de quem eu sempre esperava que dissesse se estava louca ou se estava certa, e se isso podia ser bom ou ruim. me encorajou, cortou minhas frescuras, cortou minhas tranças. me transformou completamente, me guiou a tantos - e tão longe - encontros com outras grandiosas fontes de inspiração e crescimento, que desabrochei-me em flores. antes que eu lhe agradecesse, foi ter ele mesmo com novos guias, foi voar com pássaros, ficou encantado.

do nada então me vi diante de um mestre absoluto, controverso, misterioso, que veio de muito longe e me adotou por alguns anos e me premiou e protegeu com sua companhia fecunda, intensa, espiritual e absolutamente apaixonada.

a próxima cantou como uma sereia, de um modo tão irresistível que mergulhei pra nunca mais voltar. me alimentou e encorajou quase como minha própria mãe, deslocou meus sentidos e minhas crenças, e com isso perdi um mundo em que podia ser rainha pra ganhar alguns outros tantos em que eternamente serei andarilha. e, tanto permitiu que eu ousasse, tanto alimentou minha extrema rebeldia, que, por fim, rompemos.

depois ninguém mais me adotou. ninguém me levou pra casa, ninguém me preencheu de modo tão intenso que durasse aquela eternidade-até-a-ruptura. talvez isso nem nunca mais aconteça dessa forma, agora que minha jovialidade interessante deu lugar a uma visível crise de fim brusco de ciclo profissional em descompasso com uma vida afetiva em doce infância, os sonhos a nordeste, os talentos adestrados a oeste, as lembranças todas submersas, prontas a explodir como vulcão.

mas encontro tanta maestria nas pessoas que me inspiram, que me pergunto se não estou em pleno terremoto dispersivo no mundo das minhas afetividades. e quando penso, meu deus, é incrível demais pra ser verdade, mas como pode uma pessoa como eu ter-se encontrado, de repente, em tantas e tantas e tantas e tantos encontros ligeiros e intensos, com mestres tão transformadores que com uma conversa abriam meu coração e metiam dentro dele coragem e amor, e que com os olhos e poucas palavras fizeram minha vida inteira já ter valido a pena? aí, se eu for pensar em cada um num só dia, meu coração não resiste.

inês, escrevendo dissertação, com os instrumentos guardados debaixo da cama há 1 ano, após 15 de explorações sonoras, e desejando plenos vôos.

terça-feira, 3 de junho de 2014

sangue

só faltava mesmo que, enfim, descesse tudo, e agora já não falta nada. tem uns ciclos lindos rolando no meu corpo, e que se estendem às minhas histórias, aos eus que tenho, que sou, que hei. homem não sabe não.
acaba amor, começa amor, acaba amor, sai da casa, casa nova, casa outra, sem casa, mais amor e algum dinheiro, depois contas e mais contas, o vermelho, o medo, o susto ruim o susto bom, um cachorro...
e a terra girando dentro do meu corpo, cada parte se entendendo e se desentendendo entre si enquanto vivo, nascentes de luz e escuridão que me movimentam e me recolhem, tudo isso enquanto penso que penso pra existir e ser mulher.
eu me angustio, mas meu corpo parece que sabe de tudo.
agora o grande balão de remoimentos que eu enchia sem controle aqui dentro esvaziou, parece que choveu, me sinto uma terra revirada e úmida, fértil, farta de sementes, sais, restos, desejo, fé...
só que não voltei a ser o que eu era, acho que isso nunca mais. o mundo roda e caminha, e as coisas não voltam ao seu lugar. uma coisa de que eu gostava muito morreu, e libertou-me de um vício que não me deixava perceber que eu queria lá na frente, mas não sentia a delícia do eterno preparo.
tenho um certo tesão inédito em um pouco de sangue, algum arranhão, uma mordida, de repente tatuagem. já marquei, a primeira, e já a adoro, na minha pele.

inês.

domingo, 1 de junho de 2014

sustinho

eu já queria mesmo respirar a sua pele, deixar que entrasse em mim o cheiro do seu corpo, do seu cabelo, seu suor, suas pintas, seu cangote, ai que lindo é você, e que desajeito, que desconcerto, que atropelo meu afobamento tão pouco educado, a minha fala atravessada, minha conversa avacalhada, um palavrório exagerado, e que delícia nosso delicado desencaixe, esse desconhecer que meu desejo sorve, a sua barriga lisa escondida pela camisa, os seus pés compridos lá longe dos meus, o calor das cobertas o gelado do banho mal-secado, a sujeira do banco da frente do busão e da cadeira do buteco no vestido na sua cama, e essa pureza bruta e limpa da sua saliva, doçura em hálito de cerveja, ronquinho bêbado na minha orelha, e frios na barriga cuspidos em mim pelo seu riso forte, que delícia a manhã ensolarada em volta da sua casa em volta dos seus livros e das suas ideias lindas, que delícia de café e de pão com manteiga!
é quase um milagre, mas nem me pergunto se será que vai ter mais, eu aprendi de um jeito bem doído que não é isso o que importa quando a gente se encontra, e estou sentindo de um jeito gostoso que aprendi a coisa certa, ouvindo alguma palavra sua de repente durante o dia e tentando lembrar do cheiro que senti bem rapidinho mas que me deixou bem alegrinha, me satisfez enquanto houve. é isso, só, parece pouquinho e breve, mas inaugurou-me de novo as partes doces, e que bom, obrigada!

inês, que agora celebra o desejo e ri da própria espera.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

cheiro

espero e espero
e eis que escorre (viscosa e enegrecida) a liberdade
(de sonhos mais adiante, quem sabe amor).
posso e quero exercitar minhas palavras; não dou murros em ponta de faca, não dou bola pra atos-falhos vazios da elegância de escutas ao porvir. dou empurrões, talvez, ou quem sabe quase isso, naquilo... que também não é bem faca, cuja existência vale celebrar com o esmero de buscar um nome provisório, pois sempre poesia.
(quando estou menos preparada ele vem igual a mim ou igual ao que eu era, diferente em tudo, mas encruzilhada de campos-minados-de-bênçãos e de infinitos encontros com aquelas faltas sem fundo, as misteriosas solidões do mundo, a coisa que não desce, o balão que não estoura, a semente que não brota, amor preso num sonho esquecido)
mas escorre, com ainda mais intenso calor, e pra dentro, e sobe, fumaça.

inês, viva.

sábado, 19 de abril de 2014

eu

culpa, perdão, paz, dor no peito, fluir entre incertezas, lutar contra injustiças... mas que diabo!
tem algo diante dos meus olhos, mas meu ego inchado de dor não permite que eu enxergue nada.
cada dia é um ciclo mágico, mas meu medo das incontroláveis trapaças da vida me aprisiona nos repetidos ontens.
sim, tudo foi ruim e trágico de novo e de novo, desde então... mas não porque tem que ser, e sim porque não fiz faxina, só espanei os móveis por cima.
e, desde minha primeira certeza de que não quero mais ser tão só, nunca mais me permiti a deliciosa  fonte de luz e mudança que sempre foi estar comigo.
a ansiedade e a certeza inundaram meus caminhos, e procurei me cercar de qualquer coisa, qualquer gente... até não ver nem escutar mas nada.
falta mergulho, talvez.

inês, a quem a vida mais uma vez poupou de um repentino e deslocado filho, porque aquilo que se alimenta de amor e se liberta ainda está por vir...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

cinzas

eu pensei muito, sofri com meus pensamentos, quis parar de pensar, esquecer, viver, simplesmente, morrer simplesmente...
(no afã de que o veneno da desesperança me abandone como uma nuvem que passa, até mesmo a morte visitou minha cabeça algumas vezes, a morte sem coragem de quem entrega os pontos, desiste)
olhei lá pra baixo, bem longe, bem fundo, imaginando se tudo seria questão de segundos, se haveria tempo pro arrependimento ou apenas paz.

em seguida me assolavam aquele velho sentimento de que a vida é mesmo uma correria, um sonho, um susto, um sopro, e o medo de que seja verdade o fato de que vai acabar mesmo uma hora ou outra, como já foi acabando pra tantos queridos irmãos inesperadamente mortos.
não quero morrer, quero viver pra sempre, ainda que com emoções tão doloridas e o coração tão desamparado, mas preferencialmente com alguma paz entre meus dias e noites, alguma espécie de resignação interiorizada diante do que parece ser falta mas não é, e um encantamento modesto diante das pequenas-imensas liberdades e belezas que me tangenciam. ou me atravessam. ou inundam, ou simplesmente se sugerem...

me perturba ainda um certo encontro místico e múltiplo, que, de repente, me deu respostas pra perguntas que talvez nunca apareçam, e que me revirou internamente de um modo tão potente e ao mesmo tempo tão invisível, que acabei me fortalecendo enquanto me fragilizava. e, de repente, do encontro fizeram-se rupturas desconcertantes, respostas aparente desconexas pra questões que lá no fundo eu entendo, mas que não posso falar...
(aquela casa está lá, enquanto estou aqui precisando e sozinha, e pegar um ônibus e de repente retornar parece ser como se eu a encontrasse demolida, escombros de um maremoto, destroços de um lar pós-tufão, ruínas, poeira, cinzas... em sonhos muitas vezes a visito, ou habito, ou simplesmente procuro, mas zelador sempre me aparece de costas. tudo é igual, e ao mesmo tempo diferente, o que faz com que eu sempre me desperte com uma nostalgia doída, de alguém que visita uma vida passada)
a falta que eu sinto é a falta de um lar destruído pra sempre. lá não é meu lugar, eu sei por dentro. já saí de lá e espero que lá saia também de mim.

meu coração está coberto de pó. eu sei.
sei que preciso sacudir tudo, lavar, deitar coisas fora, deitar o próprio coração fora, posto que se regenerará, certamente, para que eu floresça novamente, absorva luz, viva...

mas me sinto traída por deuses, e por desconhecidos estranhos a quem eu chamava de mãe, de pai e de amor. sendo que tenho uma mãe e um pai de verdade, que não podem evitar meus sofrimentos, mas que nunca aceitariam que eu fosse usada por pessoas monstruosas e más, que nunca me trairiam, e que, infelizmente, não vão viver pra sempre também. serão meus doces pais enquanto o tempo for propício, e depois se transformarão em plena lembrança, imagem, saudade... em algo que a morte fará parecer uma falta brutal, mas que o tempo (o tempo rei, passado, presente e futuro desaguados) dissolverá ainda numa energia sem mistério.

(e, ao mesmo tempo, um cachorro e um gato me olham, sempre, enquanto estou à noite me esgueirando pelas ruas. santos me visitam em sonhos, seja incorporando na minha avó no meio de uma guerra, seja de costas, sempre de costas mas com cheiro de outro mundo, seja me mostrando vidas passadas, futuras, seja dançando, seja me dizendo não.)

coisas boas virão?
eu só quero dinheiro pra pagar minhas contas. e um amor que seja doce, ou que seja selvagemente fiel, ou que cozinhe, ou que seja pescador...
a morte virá. (ela vem a todo momento, não descansa nunca de nos ceifar cômodos, cheiros, vozes, respostas, alegrias, apostas, suspiros, sorrisos, força...)
e dela eu quero que venha um pouco mais tardia do que ameaça vir, que me deixe um tempo suficiente pra me resignar de alguma forma, mergulhar de olhos abertos no lago escuro dos sonhos, ou mergulhar de olhos fechados no mar cristalino da vida, ou dormir com uma criança no colo sob uma árvore que eu mesma tenha plantado, ou aprender, enfim, a só ser.

inês.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

sonho II

meninos
me encostam a ponta dos dedinhos encardidos de terra
sem que eu os veja.

logo risadas
e muitas crianças.
barriguinhas e mais dedinhos
línguas dentes
pés.
elas brincam com meus cabelos
(as meninas)
e as miudinhas, peladinhas,
trepam nos meus pés e pernas.

os adultos cantam com encantados
mais saúdealegria.

não é só sonho, é amanhã
(e cura).

inês.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

sonho I

numa ilha.
cais e pedras.
e havia o passar das horas. mil horas num único dia (ou mil dias numa única hora).
o verdeazul cristalino e o pôr-do-sol. era mercado. era mergulho com asas.
e havia avô, avó, primos de longe que nunca conheci.
donada eu dirigia desgovernadamente um carro antigo, pela noite. supondo seu mecanismo e com fé na trajetória. e muitas ruas, desconhecidas e luminosas. a praia longe.
um cachorro, que podia ser um gato, que podia ser um pássaro.
e minha quarta avó, ou o gato, ou o mergulhador, me disseram que eu sabia que nunca estaria sozinha. ou sempre estaria sozinha? segundo me diziam, é uma coisa que eu já sei, então não me importa o que disseram. disseram as duas coisas.
alguém me deu sua bênção, e me disse que a comida estava ótima.

outra inês.

domingo, 12 de janeiro de 2014

sobre uma visita

querida ana,

ocasiões como esta são muito especiais. é raro que possamos olharmo-nos as duas, e passar qualquer momento como este fitando este espelho cristalino e ao mesmo tempo desgastado e turvo que somos uma da outra.

estamos as duas diante de um deus impiedoso chamado tempo - esse doceamargo que alenta-nos pela manhã -, e estamos as duas cansadas de resistir a seus encantos divinos, sua potência pacificadora e ao mesmo tempo inquietante. e eu gostaria que não tivéssemos tanto medo de seus caprichos e nos rendêssemos enfim ao seu domínio, para quem sabe a sensação de soterramento se tornar a leveza que tanto buscamos em tudo.

eu sei que você era mais feliz quando não se importava com o coração das outras pessoas, e sei que o gosto dos seus olhares tem sido amargo, mas preciso lhe lembrar que felicidade não é tudo nessa vida. não adianta sair buscando por aí tão ansiosa.

mesmo que você se sinta tantas vezes um pouco menos que cada uma de todas as coisas do mundo, é importante lembrar que vivemos em mares de secura, em que o oásis profundo e farto em que nos alimentamos é o sozinho... esse sozinho que a senhorita conhece muito bem, mas escuta ainda muito pouco, e que é o silêncio e o grito do nascimento e da morte do mundo inteiro, o parto do passado, do presente e do futuro, o berço e cova onde descansa sua força.

minhas noites escritas à mão, seus tropeços bailados em vão, se esbarram nas histórias de rios e luares que escutamos nossa infância inteira, mas como se fôssemos eternas fugitivas de futuros já contados, como se não soubéssemos que tudo tem um fim, tudo morre, tudo se transforma, tudo se perde quer tentemos ou não preservar.
mas o que importam nomes perdidos, casos perdidos, laços perdidos, caminhos perdidos, trens perdidos? a verdade é que eu e você gostaríamos mesmo é de nos perder em outra pessoa, morrer em alguém que também morresse em nós, que conosco viajasse sem mapas pelos nossos próprios corpos, nossos desejos, nossos mundos, nossos silêncios e medos e fé.

mas não se encontra ninguém que nos queira de fato quando temos nossos sonhos à mostra: ninguém entra de corpo inteiro por portas escancaradas. apenas se espia e se sai... tem-se a impressão de que por ali tudo se escapa, como se não se escapasse por janelas discretas e soleiras mais doces... sobre essas partes de nós que permitimos que se percam entre tantas falhas por aí afora, são a grande contradição da vida: é se estendendo que se permitem os encontros, e há muito mais dentro de nós do que o que se vê através das aberturas, mas nem sempre o sagrado é invisível e silencioso, ele é bruto, cristalino, e muito dado a disfarces.
e não se encontra ninguém que nos queira por dentro quando não se sabe, por fé ou por lógica, que é da lama que nascem as borboletas - essas pétalas voadoras que nutrem a máquina do universo.
(o caos gera estrelas).

apreciemos com serenidade a lama e o caos que temos por dentro. cuidemos dos nossos corações, restabeleçamos nossa fé no oásis de nós mesmas. quem sabe devêssemos sentir um pouco menos as coisas, buscar um pouco menos de sentido no mundo, desejar menos que alguém queira de nós o cuidado que queremos de alguém, fechar um pouco nossas portas. não há mais sentido em conhecer tantas pessoas especiais só por uma superfície. haverá quem tropece em nossos tropeços por dentro, sem que fiquemos nos desgastando por aí afora.

acredito que este seja o começo de uma cura que talvez não tenha fim, pois isso seria o mesmo que não mais existir.

com amor,
inês.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

beiras sem praia

fantasia I

donada. fui atravessada por tantos rios - fluxos que me curaram dores - e alguns pedaços foram ficando docemente pra trás, emergindo, leves, do escuro, batendo asas amarelas e interminando-me como pessoa, à medida em que descíamos e subíamos os cursos da doçura tantas vezes silenciosa dos santos e poetas e quanta. foram travessias carregadas de nãosolidões.
ver é negócio perigoso, nãover é negócio perigoso. viver é negócio perigoso, e desaguei de olhos fechados em braços que iam me trazendo pra onde o mar é doce (o sertão está em toda parte), e a estrada é linda, a fadiga fecunda, o ser não basta, tudo é real, há bem mais sois restando entre estrelas, o amor não existe e as coisas não tem nomes. e eu me perdi.
eu rio, e há alguém que me encara.
pensei que não pudesse mais ser tão atravessada.
e agora há mar, e basta.


fantasia II

ele veio como sempre de longe, como sempre com cheiro de mar, de destino, e aceitei o louco oferecimento de me abancar. (aguagem bruta, traiçoeira- o rio não é cheio de baques, modos moles, de esfrio, e uns sussurros de desamparo? eu tinha o medo imediato - e tanta claridade do dia!) ele cheirou o por-do-sol da minha pele, e senti seus poros, o sal do seu corpo, e desmaiei um pouco por dentro, e nossas peles e cheiros explodiam com as maritacas em bando.
trocamos de pele e de cheiros, e eu quis gritar. (o silêncio não me incomoda: o silêncio não existe)
eu sei que ele vai embora, sempre pra longe, sempre pelo mar. eu fico explodida de cheiros e peles, gozando nãosó, até me perder mais um pouco. de novo, só que como sempre de outro jeito.


travessia III

tentei mergulhar numa água escura, até que meus pés tocaram o barro da outra margem - que poderia ter sido a terceira, mas não era.


inês
(para iza).

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

cartas


carta ao monstro zed

você sabe ler, zed?
seus olhos... são de verdade?
não foi a primeira vez, zed, que um monstro me usou. aliás, já fui antes usada por monstros, por homens, mulheres, instituições, e até mesmo pelas minhas próprias vaidades, meus medos, meus monstros.
mas de certa forma, sempre houve alguma espécie de perdão, de auto-perdão, essa luz cristalina que brota dentro das pessoas que tem órgãos.
desta vez, não houve ainda palavra na sua boca, nem na boca de ninguém que assistiu à sua monstruosidade. percebi que deus coloca palavras na minha boca, mas não consegue colocar na sua.
eu sinto até que muitas vezes esse deus pode ter querido que eu sofresse, pra renascer e descobrir meus próprios monstros e minhas próprias luzes.
mas você deve ser um monstro de outro mundo... de um mundo que não consigo mais acessar à gerações, onde talvez os deuses sejam mais cruéis e permitam que se use uma pessoa até não haver mais qualquer indício de luz. acredito que os monstros desse mundo sejam tão falsos, vazios, traiçoeiros, que a gente não enxerga a pedra escura e inerte que eles têm por dentro, a gente vê neles só um espelho, de aparência cristalina e luminosa, e acredita que está olhando quem sabe pro próprio deus, pra alguém igual a gente, pra alguma coisa de saúde, de amor, de verdade. mas acho que no seu mundo não existe verdade, zed.
e o que se expôs, em nosso triste encontro, talvez tenha sido a inverdade do meu próprio deus, do meu próprio mundo, a inverdade dos meus olhos, minhas fraquezas, meu vazio. ou talvez uma verdade dolorida dessas coisas todas, uma verdade que não consegui suportar, a verdade de que monstros como você sempre vão andar por aí, sugando quem quer que os encontre e se encante por suas mentiras.
você matou minha fé. você me matou.
eu te disse que você estava me matando, na esperança de que talvez você interrompesse o que estava fazendo, mas você fez ouvidos moucos, você me devorou até o final.
eu vi que você pagou de louco, zed, eu quis contar pra todo mundo.
teve quem também tenha visto, e inclusive me alertado, mas muitos não viram, igualmente devorados pelas suas mentiras, muitos me disseram “é assim que os monstros são”... e hoje já não sei onde estão essas pessoas, porque perdi o contato de todas, parei de vê-las, e elas pararam de me ver também.
a verdade, onde está? comigo, não. ela certamente anda por aí, e de vez em quando se encontra comigo, e eu desejei que alguma vez ela também se encontrasse contigo, mas hoje entendo que ela não adentra monstros do seu mundo, que talvez você tivesse que nascer de novo muitas vezes pra quem sabe ter olhos pra enxerga-la, ou ouvidos pra escuta-la. quem sabe um dia você possa mesmo dize-la, sê-la, mas pelo que percebo, esse dia talvez ainda esteja longe... ou talvez um dia desses... você se veja num outro mundo, ou encontre outro monstro, que te faça morrer e renascer muitas vezes de repente, e então seus olhos sejam refeitos de cristal, de água, de qualquer matéria viva, mais aberta e transparente que essa superfície inerte, fria, maldosa que você expõe quando abre as pálpebras.
eu sei que se você morrer e renascer muitas vezes, vai acabar nascendo com uma luz própria, porque isso é quase kardecista, budista, hinduísta, mas acredito que é assim que as coisas acontecem.
as verdades são muitas, mas todas são uma só, para monstros, deuses e pessoas, no meu mundo e no seu, agora e sempre.
é por isso que você não diz mais nada desde que sua mentira se revelou: porque não tem verdade pra dizer, e nem deus que diga por você.
quando me pergunto que tipo de monstro você é, percebo que encontrei o monstro mais perigoso pra um ser humano: o monstro da mentira e do desejo, o monstro que desarma nosso corpo, que expõe nossos olhos e coração, que me fez de repente querer tudo, e que aos poucos me tirou tudo. você é um monstro que conseguiu me fazer não querer mais nada, a não ser morrer e nascer de novo.
quero que renasça minha luz, zed. quero que o deus que me habita não espere nada do seu.
quero esquecer você pra sempre, e não esperar que você consiga abrir a boca e dizer alguma coisa que não seja mentira, abrir os olhos de verdade.
quero mais ainda que em mim brote a luz do perdão. quero perdoar a mim mesma, a você, esse monstro que me feriu por covardia. quero perdoar a deus.
quero a luz da liberdade.
por favor suma dos meus pesadelos, por favor vá embora pra quem sabe morrer e renascer num mundo menos monstruoso que o seu.

inês


carta a deus

querido deus, eu não sei rezar. já tentei tantas vezes, já acendi vela, já fumei maconha, já cortei a maconha, já obedeci, já meditei, já dancei com índios, já chorei cantando samba, já repeti palavras, já saudei o sol, as folhas, o vento, as águas, a montanha, tudo. mas não sei se alguém já me escutou de verdade. não sei se já obtive qualquer resposta, positiva ou negativa. não sei se estive apenas tentando conversar comigo mesma.
acho que me iludi ao sentir as ondas batendo, o vento, o fogo, o amor, os sons e o silêncio do mundo, e achar que estava entendendo tudo.
porque... o que havia dentro de mim secou, e já não sei como fazer pra que alguma parte brote de novo. há algo que nasça das cinzas? nem minha mãe Iracema me contou, ainda.
perdi meu amor, minha paz, minha coragem, perdi minha casa, meus irmãos – terei perdido todos? já terei tido algum?
porque isso está acontecendo justo comigo, que sempre me senti abençoada, viva? porque eu, meu pai? me abandonastes ?
estou triste, mas muito mais do que triste, estou morta.
eu suplico, preciso que alguma coisa nasça, aqui dentro.

(nem que seja só minha fé)

inês, morta.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

a deuses

viajo porque sofro, e, porque viajo, sofro.
viajo pra não esquecer
(e viajo pra não lembrar).
viajo em nuvens, cidades, países,
viajo em ondas.
viajo em pássaros, em pernas, tempeiros,
e a cada despedida carrego todas as outras despedidas:
as nervosas, as tristes, as desesperadas,
as desejosas, as pra-nunca-mais.
carrego a despedida dos parceiros do rio, correndo qual meninos
ao lado do ônibus
explodindo adeuses que alimentaram as janelas,
atravessaram os silêncios seguintes, as paisagens.
carrego a despedida dos índios, o choro daquelas mulheres,
as lágrimas da minha tia, os eu-te-amos engasgados,
a troca de bênçãos e colares, carrego todos comigo
(carrego agora este parto bruto, nesta manhã comum).
carrego, além de tudo, a falta
falta que sinto dos mares, das casas, das chapadas.
e um peso-doído de abraços, planos, sons-risadas (qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar).
não viajo sem bagagem.
viajar é carregar saudades e olhares, coisas do céu.
viajar é partir, é querer que o tempo corra.
viajar é sofrer o correr desabalado do tempo
(bons momentos, passem lentos).

- viajo, e sei que o tempo voa assim como eu. parto, e a vida revela-se rara. sofro, e desejo partir ainda mais -
porque viajar é (se)(re)partir, e partir é sofrer, é um tipo de explodir, um jeito de ser inteiro
- é sofrer encontros, que já são em si violentas sementes de ausência. a violência do tudo e do nada, de apenas ser.

inês, numa manhã de adeus na bahia.

classificados

procuro um homem que às vezes me cale.
que não tente bancar o esperto, e que, ao me abandonar, me avise.
procuro um homem (que coma minha comida, ou cozinhe comigo, ou me faça um drink, ou leia um poema, ou que conheça boas músicas).
procuro um homem que vá comigo à praia, que saiba o que é solidão, e que goste de plantas, ou de gatos, ou de quadros, ou montanhas, ou de poemas, de filmes, cidades, de histórias sobrenaturais.

procuro um homem que me procure, um homem que às vezes me escute.
e que me faça rir, ou que ria comigo, ou que ria de mim.

procuro um homem que me perdoe, e que peça meu perdão.

inês.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

jeito: mente

seduz
mente
usa
mente
troca
silêncio.

canalhice
silêncio.

é só seu jeito, tenho mais é que entender que as pessoas são diferentes...

inês, cujo coração vai explodir, literalmente.
(e você, cínico, preocupado com meu cigarro)

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

mortalha do amor

um dia nasce, assim... tão bonito...
e sem saber tá ferindo a gente!
não suporto mais me fazer mal, não suporto mais me afastar, não suporto mais não entender!
no entanto suporto...
como pode esse tal coração doer de verdade?
como pode de repente um tanto de soluço engasgado, um dia inteiro e depois uma noite inteira e depois mais um dia inteiro - dourado, primavera - com esse aperto terrível no peito?
como pode essa tristeza? num dia desse, como pode?
o tempo passa, e eu continuo pior. eu acho que eu melhorei, mas continuo pior. é tudo triste, embora seja mesmo lindo como eu sempre soube que era.
eu sei que tá errado, mas nada agora faz sentido.

inês, ferida de mortal tristeza.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

vou

eu já me sentia escorrendo aos poucos não era de hoje, e pra lugares que sei menos... mais distantes do que a terra do sol e dos cheiros.
pra lugares nada familiares (olhares novos que hão de nascer em mim)

agora parece mesmo que vou.
(parece mesmo que vôo.)

vai saber. mas já olho meu redores com adeuses secretos... e pego-me desapegando-me de tudo o que vai passar. e já doi. já é tarde demais, e o momento é agora. não entendo (mas vôo).

(daquela casa que não sei de que modo me quer nem porque me recebe: só o amor aos santos me fará passar por isso mais algumas vezes. olhar sem nojo a face da maldade e me fortalecer, até encontrar um lugar com alguma paz: o perdão da distância.)

e das coisas que importam - que não encontram-se vivas em cada lugar e instante do mundo... vó e vô me esperem, que ainda não é hora de virar tudo saudade. pai, mãe, não posso pedir que me esperem... que ainda não é hora de virar tudo saudade... mas vou!

inês.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

ser

ouço um vento, aqui comigo. vento interno, violento, que foge pelos meus poros, pela minha boca, pelos meus olhos, e me carrega praquela distante paz diante do revolto encontro entre o mar e o céu, encontro azul entre o profundo e o infinito, o cristalino e o escondido, que me alenta e me transforma no grão de areia que sou. lá, minhas pretensões, meus juízos, minhas desilusões, se transformam em vozes miúdas, em impotentes dores surdas de quereres triviais: trago em mim um algo a mais, que sossega minha fuga inglória, que me traz de volta pra dentro, pra explodir em ondas de vento. e quem sabe ainda haja tempo pras ligeiras alegrias, pras certezas fugidias brincarem no meu ori. eu sei que estou aqui, mas minha mente está lá longe, buscando uma paz que se esconde nos mais doces manguezais. sou um rio que corre pro mar, uma estrela ensaiando um luar, mas caindo pra sempre num nada, pra compor tudo o mais que existe: eu sei, a existência é triste, mas a eternidade é linda, é como esta noite, que finda, numa explosão de pássaros-tons. e é pra isso que existe o samba, pra lembrar que é o tempo quem manda nos caminhos do nosso ser. a poesia é tudo o que resta - pra quem chora, sorri ou contesta - e a sábia cadência do mundo, a batida de cada momento, transformam e vida em verso, convertem desejos em vento, invertem todo o universo!

inês.

longe

cheia lua, lá no alto,
toma meu corpo de assalto
e me põe a caminhar

viajo, num mar de saudades
sem saber o quanto é tarde
pra buscar um porto, e ficar!

estou só, e no relento,
abraçada pelo vento
pelos beijos do luar

lua grande, a senhora
sabe bem o quanto demora
minha espera pelo mar

me rodeiam corpos estranhos
e um desejo sem tamanho
por um cheiro familiar

(aquele, de algas e sal
de um além tão colossal
de um alento libertador...)

lua cheia, estás comigo,
como o céu, que é meu amigo,
como as ondas, meu amor!

inês, que escoa.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

samba em cores

não mais que de repente
sua estrela me ilumina
a noite desatina;
você só me traz paz.
minuto precioso,
um encontro neste mundo:
seu ser é um segundo
(a mais...)
 
tão longe brilham astros
tão raros nossos abraços
(iluminosos passos
com sua voz)

há força entre nós
(nascida em nossos avós):
sagrada brincadeira
(de estrelas da vida inteira)
descuido atencioso
que escapa, precioso
entre palavras e fé

poetas saberão
o que essas horas são
trocadas de repente
aproximando a gente

e muitos são os olhos
e tantas são as mãos
que guiam nossos sonhos
em oração!

sabemos nós o quê?
vivemos nós de quê?
(da força das sementes
em tudo o que há na gente:
de chuva, luz, e terra
querer!)

se dói não ter saudade,
na vida nunca é tarde
unir-se em homenagem
a ser, e só!

se o verde é um broto do preto
(segredo de ancestrais),
meu amarelo é ouro
é sangue dos mortais...
abraça-nos o branco
que entrega, que irradia
pra fora, a luz do dia,
pros outros, alegria,
pros mudos, poesia,
pros loucos, melodia...
e em nós não retém nada:
ilumina nossa estrada
(pra além dos quereres normais)
pra outros carnavais!

beijos da inês.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

não volte

você disse que viria (e disse que queria), e então comecei a preparar meu melhor tempero. escolhi meu vestido imaginando como seria visto, tocado, talvez até tirado pelo senhor. limpei as janelas, isso no primeiro dia. mas você não veio, e eu me decepcionei, e comi sozinha todo o jantar.
no dia seguinte o mesmo... outro vestido, outro tempero... um sinal de desejo, e então escureceu e veio o vazio... não entendi o que havia se passado.
depois, por vários dias, a mesma espera, outros temperos, outros vestidos, outros discos, os cachorros latindo pra qualquer um que se aproximasse da porta, como se também esperançosos pelo seu retorno. comecei a entender, comecei a chorar. escrevi. perguntei se era abandono, mas o senhor disse que não, que era só seu jeito.
mas tudo, por melhor que seja, envelhece, resseca, murcha, foge.
era só dizer que não se dava bem com o tempero. era só dizer que não queria saber de vestido, de música, de conversa, de nada que eu tinha pra oferecer, a não ser aquela pequena parte do meu corpo da qual o senhor sentiu falta quando não mais pôde desfrutar.
eu senti que não merecia mais esperar pelo senhor, nem guardar meu carinho, minha atenção, meus cuidados, meu tempero, meu tempo. mas chorei ainda muito até entender que não havia nada de errado comigo, chorei às vezes com desespero, mas quase sempre com uma tristeza tão doída, que por dias as janelas sequer foram abertas, sequer coloquei vestido algum, e comi e bebi sem vontade, entre soluços e silêncio.
o senhor já está na idade de saber que pode destruir o coração de alguém com tanto descuidado. por favor, não volte.

inês.

la cúmbia

um amor antigo - tão velho, amor!
nós dois, naquela árvore (nós dois na rua da árvore, caminhando à noite pela cidade da árvore, tão quase-na-árvore que era como se estivéssemos no seu tronco, nos galhos, entre as folhas lá no alto)

o que nos terá acontecido, que pra tão longe fomos?
(é o curso mesmo do mundo, o tempo-rei-de-tudo, o infinito...)
(é você que pensa demais, inês, é você que sente demais!)

hoje, compreendo meu privilégio (afora o malbendito mel que não me serve mais) de caminhar pelas ruas de qualquer cidade, à qualquer hora, só... pois já partilhamos nossas regalias numa noite iluminada na cidade-das-pedras-reluzentes-e-da-árvore. teríamos imaginado nosso segredo naquela noite?
não por acaso fui conhecer a cúmbia tão longe do seu atento saber (saber trazido de tão longe, tão com-amor cultivado, preparado pra encontrar miudamente os tambores, recife, a nigéria, qualquer parte da amazônia): pra mais tarde descobrir com esse delicioso espanto que ainda estamos aqui, e que já ouvimos coisas tão parecidas de partes dispersas de uma mesma sagrada-força.
o que terá sido? afora sopros de vida, luzes brotadas do mais interno-sagrado-fêmeo, pássaros cantando, pássaros voando como um canto da nossa terra, bastava escutar o vento atravessando árvores ocas, o debaixo-do-barro-do-chão.
(eu, que confio no dono das ruas e da noite, e no dono dos meus caminhos como se deles todos fosse filha)
(você, que tem fé e vem de longe, que tem olhos com histórias, que anda só, como um dos nossos muitos gêmeos perdidos-encontrados nas noites-cidades do mundo)
sempre estivemos por aqui, partes de uma coisa só, quase poeira de estrelas (e de folhas, de pássaros, conchas, instrumentos, restos de seres, pérolas, começos, barro.)

inês, na noite de algumas despedidas.

sábado, 17 de agosto de 2013

meu coração acelera, mas bate pesado como um relógio-da-sala: meu sono, meu riso, meu choro, minha fome, meus sonhos são inquietos, dispersos, e ao mesmo tempo pungentes, como se um pão crescesse no meio da minha garganta. é quase morrer, esse viver tendo sustos, ímpetos de uma tristeza sem fim aliviada por pequenos suspiros de uma ansiedade nervosa, fugitiva.
não dói só a dor do impedimento, nem tampouco a dor do arrependimento. dói, lá no fundo, a velha dor conhecida de sempre, a dor de se estar profundamente só, de não se reconhecer em nenhum olhar, em nenhuma voz de ninguém, porque tudo o que existe de fato, fora o mundo todo lá fora, é esse mundo todo aqui dentro, do qual sou senhora e não sou, e que já conheço bem, mas no qual ainda me perco tanto.
a certeza de que somos todos bons trava luta constante com a certeza de que todos somos maus, e deixar que outra pessoa, por querer ou sem querer, possa me dar um chão pra depois toma-lo tão bruscamente e sem olhos-nos-olhos, me atira como um soco cósmico de volta ao início de uma caminhada que terei que fazer novamente, só que cada vez com um peso mais insustentável.
há aqueles que se preocupam visivelmente com minha coluna, mas sequer imaginam que o que ainda vai me matar é este coração, cujas batidas chego a escutar empurrando meu peito quando estou tentando dormir, principalmente quando não há ninguém comigo além de mim, sendo que tampouco haverá na manhã seguinte, e sendo que talvez nunca tenha havido, de fato.

inês.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

re-partindo

neste dia e nesta noite silenciosos, me pareceu cristalino que não há como reconfortar ninguém sem ter realmente sofrido até perderem-se quase todas as esperanças. conheço uma solidão profunda que me acompanhará pra sempre, e ao mesmo tempo sei que uma parte de mim e do mundo sempre escutará a minha dor. um dia vou partir e nunca mais voltar, mas enquanto isso parto e reparto minha história através do meu trabalho e através da minha fé. é verdade que nunca se retorna ao mesmo lugar: não há passo pra trás, mas apenas recomeços. as saudades são verdadeiras joias doídas e maravilhosas que expandem meu coração e me fazem ver a cada dia mais longe, especialmente em dias e noites de silêncio como estes.

inês, que já se foi sem perceber.

domingo, 28 de julho de 2013

dores

não há retorno para aquela ingênua vida de desejos: quase tudo já morreu e o que restou foi um veneno amargo e o sufoco da solidão.
não creio que eu venha a ter quem cuide de mim como sempre cuidei de quem gosto, e nem eu mesma consigo amar meu próprio corpo, que envelhece acompanhando meus sonhos e tudo aquilo que nunca consegui ser.
penso em morrer, em ir embora pras ilhas, em fugir ou morrer, porque não tenho ninguém com quem trocar sinceros e verdadeiros cuidados, não moro perto do mar, e não vejo sentido em viver sem sentir a alegria que sempre carreguei quando ainda acreditava em alguma alegria de viver.
os alejados, os miseráveis, os desvalidos, os loucos, penso sempre neles... mas não consigo acreditar que me faltem desgraças pra que eu valorize a vida, porque afinal sempre achei tudo tão precioso e divino e lindo, e sempre tive tanta fé na vida e no mundo... que se agora tudo está tão inesperadamente sombrio... é porque talvez seja hora mesmo de desistir, pra mim.

inês.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

vi

saudade
como dói fundo
fundo
fundo
tão fundo e tão doído!

como posso, em um dia, explodir de chorar e explodir em riso
riso com lágrimas e a boca cheia
olhos
maiores que a cara
luzes e energia sem fim
sede, amor, suor, desejo, açúcar, saudade!

como podem ter cabido tantos homens tão enormes, tantos deuses fortes com suas paixões transatlânticas
tantas falas, de lugares tão longe
quanta saudade eles me trazem, assim logo tão cedo!

quanta saudade, assim, de tudo - com quase tudo tão recente e perto e vivo
e tanto riso!
como dói fundo, e como dói tudo!

não consigo dormir, porque dói, e porque, nem acredito, mas é como se tivesse muito pra rir e pra chorar ainda hoje.

inês, doce, na sua cidade preferida da infância.

domingo, 16 de junho de 2013

parto III

quero ir
embora
queira no fundo
viver pra sempre
aqui e lá

lá longe, onde já vi que é diferente, onde há outro sotaque, outras palavras, outras formas de viver e de morrer, onde
há mar
é tudo.

inês.

sábado, 8 de junho de 2013

parto II

poderia escrever os versos mais tristes esta noite
sobre alguém que tenha querido tanto
mas não sou poeta, e quero apenas partir.

sinto-me incapaz de aprender, na busca teimosa que empreendo por um abutre que me bique o fígado.
entrego-me ao desejo de cem mil homens, e é como se eu nunca houvesse sentido nada.
dorme meu corpo (a última canção, desesperada).
apenas espero: apenas partir.

sinto-me nada, como se nada nunca houvesse sentido
e ao me buscar, percebo que já não estou: já parti-me em pedaços.
a-risquei-me nos muros, nua, sem versos, palavrassoltasgritos.
grito e não me escuto: pois nunca fui poeta.
e tudo o que quis foi partir (o que nunca tive).

inês.

embora

partir
a fruta
da vida
e ir
pra dentro
do mundo

seguir
histórias
sem fim
correr
atrás
de mim

embora
tudo
igual
longe
daqui
inteira.

inês

quarta-feira, 8 de maio de 2013

bênção

as coisas não se separam, elas se desdobram: expandem-se, escondem-se, não faltam, mas sobram. em todo silêncio há sopro, em todo ruído há força. os Outros caçam-se e cantam-se, dançam até que hoje seja ontem, até que esta noite seja (a)manhã. entramos, divíduos, no mundo das luzes (pensando serem sombras o que o olhar externo não vê). abrimos o corpo ao fecharmos os olhos, abrimos os poros cantando com fé. o Outro é o que nos alimenta, o Outro alimentamos. nossa fome é do Tudo, aquele que está em cada. a cada dia, cada passagem permanente. não temos lugar, somos o lugar infinito de todos os tempos, mundos simultâneos de agora e sempre.

inês.

domingo, 5 de maio de 2013

eu nada sei

estou tão longe - mas perto
estou por fora, mas lá dentro
um pássaro voa, e com ele minhas lentidões
meus sabores preferidos
meu passado.

faz frio, e é tão frio o frio
silêncio e som se abraçam.
(finda a noite veloz, e folhas caíram, vigiadas por deuses e amadas por pássaros)

aqui dentro bate um coração quente - afogado entrefolhas (des)conhecidas
quero um amor que já existe, e nem sabe ainda como nascer ou nasceu
(enquanto corremos as árvores nos devoram mesmo).

quero seu desejo ao infinito, ainda que tudo seque no frio e reste apenas aquilo que não seca.

estou aqui ainda, foradentro
engulo o quente enquanto o frio me engole
e o quente engole o frio
e nunca mais estou só.

(quero seu amor aqui dentro)

inês.

terça-feira, 30 de abril de 2013

amizade

na rua senhor dos passos vindos da pedra do sal
no silêncio do comércio, gritam os escritores e caminhantes
(noturnos)

lapas
confidenciam
mistérios de almas errantes, encontros, desejos, suspiros, histórias
(quem somos nós - que vindos de tão longe nos encontramos naquela esquina relembrando o poeta Sinal, salvador?)
amanhecemos, eternamente irmãos!
(mais um sinal no meu caderno de prezas)
e cá de cima eu vejo a noturna cidade, que engole violenta ellas e pais de família
a despeito do que há ali atrás da zona do cais - o mar.
cá de cima, à procura de uma tinta um muro: rio, te amo. rio, te deixo. queridos poetas, não se esqueçam de mim. abaixo a ditadura. vou voltar. minha história é mais bonita que a de robson crusoé.
um resto de tinta, um muro:

inês
(.)

sábado, 27 de abril de 2013

esquinas

cachaça
canela
pernas
tropeços
cheiro de doce cheiro
(na lapa as pessoas caminham e riem e dançam carregando suas todas faces)
sou uma bola de ferro e de repente sou fogo
haja mar.

inês.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

vou

céu
(tão longe o céu)
banho de azul - imenso azul querido
já não o mesmo que conhecemos nos tempos de brincar de deus
(tão novo céu, azul que nunca vi)
presente fresco de manhãs escancaradas
(irrompe esplendoroso ao espreguiçar o dia)

no tempo dos furinhos nas bases dos dedos, não esperava qualquer esquecimento
- como será possível esse escurecer interno? -
de que cada dia valeria a pena - único, única luz, único verde, único azul ou branco, único amor.
já podia voar, e posso ainda.

inês.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

abriu

brotam cá dentro lá fora nas pontas do corpo à espera de um vento
(um último sopro)
até que outros sopros me sequem ao sol!

então serei só:
a poeira e o resto do verde querido
amor (ressequido)
e só isso mesmo: mistura - tão forte!
entregue à sorte conexa ao tudo
sem medo, sem morte ou cantospalavras que irrompem do nada
- só o brotar teimoso
 do sempre.

dançamos ao vento
(à espera de um corte)

que outra beleza se há de querer?
(cá dentro, lá fora, esperar... e só ser?).

inês que viveu e inda não brotou.

segunda-feira, 25 de março de 2013

ciclamato

tu és doce.
áspera eu.
e meus peitos ásperos perdidos no seu computador, reduzidos a lembranças-objetos do seu ego, eu indelicadamente solicito que não sejam mais tocados pelos seus olhos
que hoje
não merecem
tocar
minha
aspereza.

vazias palavras.
estou cansada.

prefiro o duro que o amargo, que nojo do amargo.

inês.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

delicado. ou: para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem.

o anseio de não estar só não serve pra qualquer noite
noite em que me perco, disperso, entre abraços e sambas e perdões
(sambar é um modo lindo de perdoar a dor)
saudade é mato, mesmo
(sambar é um modo lindo de querer)

a cidade é um pátio
e logo o mundo é um pátio
desilusão é mato, mesmo
(vou-me embora pelo mar).

seres lindos parecem me querer
(me querer pra quê?)
e eu me deixo seduzir de leve, por olhares solares
toques, marcas, promessas
a saudade aperta, mas meus olhos estão cegos e preciso respirar.

quero marcação
surdão
e correr, com toda a força e velocidade do corpo
(fazer vento)
e parar e dançar
e rezar
e dançar
e chorar
e cantar os sambas compartilhados em roda com todo o ar dos meus pulmões, até que a alvorada nos expulse da rua e eu tenha que dormir.
dormir só
(só?)
não importa.

salve, cadência sagrada que nos redime e que me alimenta!
quando o mundo acabar, eu estarei no samba.

inês.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

tempo de meteoritos

estrelas cadentes passam nos jornais (abrindo crateras nos Montes Urais), enquanto - diante do que me cega - danço.
estrelas
errantes
(na cadência lenta-veloz do espaço)
o que é o tempo?
(mulher nua no balanço. tempo manso)
sábias senhoras, no compasso dos céus
(brincam conosco em seu carrossel)
nos despertam os sonhos
com seus raios de aurora
estrelas
(menores)
perdidas na areia
banham-se em silêncio
escutam histórias 
(as de amor, trazidas ao mar na doçura do rio)

eu rio.
estrelas da praia beijam meus pés
(estrelas brilhantes acima de nós)
(datas marcadas. tempo feroz)

e quando, enfim, nos vimos a sós
sopravam por frestas
nosso sono quente
vigiando, zelosas, as loucuras da gente.
(amor reprimido. tempo perdido)

silêncio no mundo - e um tambor no meu peito
eu sabia que ali, a cada segundo,
uma estrela nascia (ao passo que outra morria)
e entre cores, brilhos... e um céu infinito,
lá no alto uma história
um encontro (bonito!)
entre filha de estrelas, poeira estelar
(dores dentro)
centelhas
ouro do mar
e príncipe (ou rei?)
(que certezas terei?)
senhor de fogueiras, incêndios contidos...
folião curioso, brincando comigo!

entre cheiros - e toques
a energia dos corpos
acomodou-se entre as formas, e cores e vãos
até explodir
janelas afora, subir para o céu, crescer (e ir embora!)
(um amor desejado. tempo parado)

e foi tudo tão breve, um cometa brilhante
(uma onda do mar, carnaval de amantes)
tive medo de amar
(e seguir adiante)
e, brincante,
entreguei-me inteira ao desejo sem fim
com a bênção dos céus, santos e serafins,
consumi-me entre o brilho
ateei fogo em mim!

inês, morta e nascida e morta na sexta-feira de cinzas.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

filtro dos sonhos

banham meus pés espumas prateadas
(descomunal energia, delicadas lambidas de amor e perdão)

mãe colossal de todas as mães
embebe o ouro milenar
(pura entrega, fosca e reluzente),
embebe meus poros
minha pele aberta, meus cabelos
cobre-me de água e sal
(lava-me os olhos e os sonhos).

traz-me amantes com cheiro de mar
sopra
até brotarem as forças dos meus movimentos.
lava profundo isto que sinto
e canta
cantigas de marinheiros
cantares de avó.

e mergulho com devoção (nos cristais infinitos
ocultos sob as ondas embriagantes - limite entre mundos)

traz-me amantes
pro fundo do mangue
(profundos silêncios,
entregas sutis,
estalos, feitiços, lama, doçura)
berço verde
que sol e lua
abraçam, esquentam, escondem-revelam.

e as ondas de açúcar
mistérios resvalam
(trazendo cantos de esquecimentos doídos
de amores passados
naufrágios
engasgos)


sou casco, estrela, areia, coral
um resto mortal
reluzente
e só.
sou lama, sou água,
sou rio
sou pó.

dona de nada, senhora de tudo
um traço bruto
que o vento e a água constroem por fé.

inês.
(a vida é tão rara!)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

mais fé, por favor

vai-te embora, inês paraíso!
inês perdida, inês-sem-lugar, inês morta, inês inteira
vai-te embora por estas terras, sem medo do invisível
sem medo do insensível, do desamor do mundo
vai-te embora pelos caminhos sagrados
(por tudo o que é mais sagrado).
e fé na entrega, que doar-se é ganhar o mundo inteiro
fé nas mil fendas que o corpo feminino esconde
fé na solidão, na inteireza de todas as dores,
fé no amor dos seus próprios pés, o único amor que há.
vai-te embora, pra onde dança o espírito
pra onde há que ser bruto pra ser delicado
(vai-te embora das delicadezas da conveniência).
e vai com fome, jejua.
vai servir.
pede licença,
pede desculpa
(àqueles que te recebem).
recebe aqueles que te atravessam
(agradece aos que te atravessam com doçura)
desapega,
desilude,
perdoa.
vomita o choro,
salga a carne,
mergulha!
escuta,
fortalece a guarda,
tem fé,
abre os caminhos do corpo e do mundo...
e vai-te embora.

inês.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

parto

é um broto que me perfura violentamente a noite, e já não me sinto mais tão só.
como se nunca mais fosse possível me perder ou me encontrar, e como se todos os olhares possíveis fossem eternamente meus.
é meu útero que explode, um rebento viscoso, irritado, cansado de esperas, fêmeo, e só.
a falta amarga de um amor
(que não me sugue como se eu fosse um ídolo frágil,
que não aflore luminoso de um anulado vão escuro, 
que só me sugue 
e que já saiba se cuspir com algum pouco de cuidado)

dançam santos conosco, e eu no fim caminho sempre só

sem homens e seus quereres mesquinhos
só a lua, a força da caça, o descuido preciso do vento, o carinho dos fluidos femininos do mundo, o bater do meu coração
meus defeitos murchando sem eco
talvez
meus desencaixes todos tornando-se os rastros de uma entrega
uma suspensão
olhares noturnos
naturezas particulares e expostas, senhoras de si e do mundo, porque solitárias de homens, porque desajustadas, talvez.

não fosse a desilusão permanente, o contratempo teimoso da fé

não desabrochariam tantas flores, e as cigarras talvez cantassem seus últimos cantos de primavera de modo mais contido.

inês.

sábado, 10 de novembro de 2012

o cachorro uivando perdido no meio da neblina

neblina
na noite
filtro difusor de uma grande vitalidade estética da cidade, a imagem,
viva, semovente, povoada de mutabilidades devires tensões deslocamento
um jogo gigantesco, mais invisível que visível, morada de tantas nossas projeções, viagens, anseios, medos.
preciso sair e caminhar também na chuva no escuro, em meio a sabe-se-lá que tipo de ratos, feitiços, maldades...
bênçãos...
visões e olhares que escondo de deus que já me dou satisfeita por ter como minha vida inteira.
tá imbaçado...
mas a rua chama, suas concavidades vorazes, seus silêncios inesperados, seus vazios...
a rua, aberta, repleta de ímãs densos, irresistíveis como experiências alucinógenas-cinematográficas-geográficas-gráficas-místicas, suga a alma e aos poucos a carne, seca algumas coisas
inunda-nos de vazios e de universos

a neblina em qualquer selva
filtro difusor
máscara de ver menos e sentir mais.

inês

terça-feira, 30 de outubro de 2012

há mar lá dentro.

pensei que fosse o fim, o coração desgovernado (desespero, descompasso, os ecos doídos de uma vida só.)...
mas ondas me lavaram o lixo.
e meu peito aberto entre conchas encontrou a paz de um azul mais infinito que o céu, a paz de um mergulho silencioso profundo
no reino sagrado da mãe dos homens e dos deuses.
amor, livre, me tomando sempre antes que eu seque.

inês.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

caracóis

quase todos os dias são sempre meio doídos, e de vez em quando acontece de eu querer ir embora praquele lugar de lembranças brilhantes, cujo nome não posso escrever aqui. talvez essa hora seja agora, e por isso meu quarto esteja com tanto lixo acumulado, as coisas todas subindo pelas paredes, não aguentando mais esperar por mais janelas.
ao mesmo tempo isso demanda organização, demanda foco, demanda justamente apego.
tudo tão bonito que cega tão suculentamente bonito que cega tão doidamente bonito que cega.
entre relatórios, passa um caracol, e eu preciso ficar olhando pra ele.
não tem problema, o tempo expande-se, e eu nunca mais vi um caracol.
está tudo tão empoeirado, eu estou tão triste e me sentindo tão bonita e tão cega que é preciso mesmo...

inês.

terça-feira, 26 de junho de 2012

cratera

o olhar da minha mãe uma ferida que nunca estanca aberta insistente doída o suspiro do meu pai quanto lamento quanta distância e desespero o inevitável fim cada vez mais próximo, e a infância lá looonge... com carinhos surpresas e ideias novas planos sonhos delicadezas...
quero uma pele novinha quero tapar buracos curar essas doenças estranhas quero que ninguém chore mais por mim esse monstro de ansiedade e ódio em que me transformei.

a velhice é triste.

inês.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

saudade é mato, com gosto de framboesa amarga.

não há terra do passado pra onde eu possa retornar. há só uma descida infinita e cada vez mais sem queridos da infância, cada vez menos certeza.
vou me sentindo mais forte, mas ao mesmo tempo tenho menos em quem confiar, e diante dessa esperteza toda da morte, quero abandonar os poucos que me restam pra assumir enfim a explosão da vida, o tamanho do mundo e a única chance possível de viver tudo.

... mas que existisse aqui mais desejo e paixão, um certo amor pelas coisas mais trabalhosas e delicadas, pra só assim não correr esse risco perturbador de um dia de repente sentir a falta de gestos e sensações já apagados e mortos de fome.
e preocupações com coisas sérias que não acompanharão nossos corpos seja lá pra onde forem, e desesperos por alívios quase doentios de tão vazios sufocam as coisas que mais valem a pena na vida.
que eu nem sei mais com tanta certeza assim se são realmente o barulho do mar, o conforto do sorriso e da voz de algumas pessoas, as lembranças secretas que afloram de vez em quando e alguns tipos de frutas, chás e perfumes.

inês.

sábado, 17 de setembro de 2011

coração, terra em que não se anda...

não está certo sentir raiva das coisas do coração.
(mas deus sabe dos silêncios que me deu, e eu sei quantas vezes fui eu a aceitar um mundo tão maior que meus desejos.)


inês.

sábado, 9 de julho de 2011

hurricane

eu odeio o que a igreja, a tv e a escola fizeram à minha família
(e lamento por minha solidão, lamento por tantos espectros...)

os diamantes brilham, mas não emitem luz...
cristalina verdade, a solidão.

fecharei meus olhos de fantasma pra ver a floresta de cristais e espelhos
(fecharei meus olhos para dançar...)
mas antes preciso assassinar certos seres

alçar vôo num sonho e não ser mais só eu.

inês.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

das coisas que não existem.

irmão mais novo, ausência doída que muitas vezes quase escrevo. o que fazer com ele, que, antes tão jovem, tão alegre, hoje computador, desemprego, solidão, frustração, mediocridade sem volta, desinteresse pela vida, mulheres fúteis que nem ele mais suporta, classe média, provável maconha sem sentido, pressão da pressão da pressão, diploma guardado, nomes pesados, sermões, mágoas que suporta no coração ainda tão jovem e já tão entupido com gordura e ressentimento, depressão, completo torpor, provável medo, afastamento do mundo, falsa e desesperadora incapacidade, improdutividade e passividade absolutas, a vida passando.

que sensação terrível é essa acumulando-se há algum tempo e tornando tudo tão mais escuro e sufocante e triste?

deus não permita que esta casa caia nessa perdição, ou são muitos os corações que se perderão para sempre...

inês

quinta-feira, 21 de abril de 2011

libéralité, ou: bruta flor do querer

só em casa, no meu quarto na minha cama fumando um baseado bem feliz escutando raul de souza meu deus que coisa maravilhosa.
pensando nas coisas.
vou estudar daqui a pouco é uma delícia (não vou estudar instrumento, mas também seria bom se eu estivesse na vibe).
vou daqui a pouco viajar com uma mulher, ela parece uma fada de cabelos curtinhos comendo manga de vestido branco no meio de um bosque ensolarado. e a gente briga, já, as duas, e parece que as brigas só dão mais tesão espero que este instante dure bastante... hum, vou comer uma fruta. vou pra rede.

inês, bem viva.

terça-feira, 5 de abril de 2011

ser-pele

cá está minha boca cheia (de cansaços e de quereres), e meus ouvidos à espera da costa do marfim (meus olhos ainda esperam o mundo inteiro), e os cheiros que estão na minha memória mal cedem espaço pros outros que aparecem.
sou toda tato, a serviço de leis que os homens de cá e de hoje desconhecem.

(porque é minha língua que toca o gosto, meu tímpano e cóclea e cílios e cérebro lambem o som apertam tocam esfregam ou resvalam, e meus olhos saem daqui e passeiam pelo dias - ou pela escuridão - deitando-se sob as mangueiras do mundo ou beijando o espelho.
o cheiro das coisas entra em mim sem limites pra tatear tudo o que sou e que fui, e às vezes queda-se na pele de dentro, nas peles dos meus duplos eus, ou mesmo nos pequenos pedaços de mim que se dão constantemente aos outros, e nunca mais desapega.)

algumas coisas passam por mim pra me abrir mais poros, superfícies permeáveis e infinitamente táteis, e não há tristeza ou alegria que me protejam do toque eterno lindo e dolorido entre o mundo e eu.

inês.

terça-feira, 29 de março de 2011

bilhetinho

não sabes ainda... mas danças em mim desde aquele instantezinho de ontem à noite em que nossas peles se chocaram. devo confessar que desde sempre tive predisposição a te amar, mesmo antes de ver de tão perto sua alma açucarada e dançarina, mesmo antes de me permitir imaginar tão pouco espaço entre a gente. tens algo de moderno, de artista, de outros planetas e de goiabeiras e riachos e porteiras. tens um viço e uma beleza que adormecem certas partes do mundo. tens fome e delicadeza (e por enquanto tens a mim). vamos assistir a um filme? vamos fumar um baseado, dançar bolero, tomar uma cachaça ou suco refrescante? vamos pra cachoeira vamos pra praia vamos ficar pelados? vamos ter um filho? vamos pra recife?

eu te amo.

sábado, 26 de março de 2011

prece

frio metálico com calor de fornalhas - frustração de me ver no círculo vicioso da agressão
quase tudo é amargo e tem gosto de sangue
só o amor me libertaria agora, só dele não desisti
ou quem sabe a guerra, amarga, metálica
quem sabe qual dor de liberdadentrega.

estou preocupada com o completo sumiço das borboletas e com o movimento messiânico dos grilos sapos pássaros rumo à terra sem mal. o livre arbítrio agora me assusta. a dança dos astros e a sálvia e a noite.

bela boneca de piche, sê feliz! te devoro em sonhos. mas o cigarro me assusta. (o fim. que a propósito já existe desde sempre.)

deus acompanha meus currículos. e que meu coração volte a querer alguém.


amém.

domingo, 6 de março de 2011

estação infinita da lama com brocal

há carnes deliciosas excitando baterias ensurdecedoras no meu corpo
(na cama que escolherei?)
e crianças musicais transformando latinhas em futebol.

e bêbados,
como há sempre
e guardas.

(há becos
protegidos pela guarda municipal
e isolamentos da rede globo e da polícia.)

há cachaça boa
lá da região de salinas
há pó.
e sonhos e lantejoulas e sapatilhas.

há, como sempre, humildade e brodagem além dos racismos
além de muito suor e sereno.
há a vibração da mãe áfrica
a libertação de todos os gozos ancestrais.

mas aqui nada tão negro tão forte tão brilhante tão fluido tão comovente e vibrante quanto o carnaval do meu tão longe recife enchendo os mangues as ruas as casas as portas os olhos
os corpos dos que se entregam aos deuses do amor e da guerra

(e abandonam suas almas
entre a boiada lírica da quarta feira de cinzas na rua da boa hora).

inês.

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