Querido, quero dizer que não te pertenço, muito porque estás longe, mais ainda porque o olhar, o sorriso e a temperatura morna do corpo de um certo Luiz Gabriel – que é o próprio Luiz Gabriel – me perfuram a ponto de eu não poder ser de ninguém, uma folha tão seca que se algum idiota tentar pegar vai esfarelar.
Como consolo te digo que sou burra, te digo que sou louca, porque sei que sou mesmo, e que jogo fora o reinado com que me coroastes pra me sentir folha seca, com a certeza que só os muito loucos tem das incertezas da vida.
Pertenço a alguns cantos do mundo que sequer me viram quando estive neles, e que só eu sei ou nem mesmo eu sei onde exatamente me doem. Pertenço a sonhos e a músicas que habitam certos lugares que sequer me viram passar, mas que se instalaram corrosivamente nalgum pedaço de mim que não alcanço com as mãos ou os olhos. Pertenço à música que ressoa dentro do meu corpo e que me despedaça com seu vício destrutivo, e pertenço aos pedaços que dançam ao som disto tudo que está perdido aqui dentro. Pertenço ao espectro branco das espumas do mar.
E queria muito, querido, mas não te pertenço.
Talvez mereça, mas não te quero, Caminho-De-Volta-Pra-Casa.
É tarde pra pertencer - talvez também seja cedo - porque agora já me doei inteiramente ao abismo acústico que se abriu em mim. Por ora me condeno a mãos eternamente vazias, e um formigamentozinho de insegurança torce pra que nada nunca me absolva.
Seja feliz como sou, folha seca que sou, louca que sou, perfurada que estou.
Talvez algum dia uma sobrinha não entenda o que os gatos todos da rua entenderão: eu te dizendo agora, como digo ou ouço sempre: por favor vá embora...
Inês.
Fonte do Pinheiro
Há 4 meses