sábado, 23 de fevereiro de 2013

delicado. ou: para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem.

o anseio de não estar só não serve pra qualquer noite
noite em que me perco, disperso, entre abraços e sambas e perdões
(sambar é um modo lindo de perdoar a dor)
saudade é mato, mesmo
(sambar é um modo lindo de querer)

a cidade é um pátio
e logo o mundo é um pátio
desilusão é mato, mesmo
(vou-me embora pelo mar).

seres lindos parecem me querer
(me querer pra quê?)
e eu me deixo seduzir de leve, por olhares solares
toques, marcas, promessas
a saudade aperta, mas meus olhos estão cegos e preciso respirar.

quero marcação
surdão
e correr, com toda a força e velocidade do corpo
(fazer vento)
e parar e dançar
e rezar
e dançar
e chorar
e cantar os sambas compartilhados em roda com todo o ar dos meus pulmões, até que a alvorada nos expulse da rua e eu tenha que dormir.
dormir só
(só?)
não importa.

salve, cadência sagrada que nos redime e que me alimenta!
quando o mundo acabar, eu estarei no samba.

inês.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

tempo de meteoritos

estrelas cadentes passam nos jornais (abrindo crateras nos Montes Urais), enquanto - diante do que me cega - danço.
estrelas
errantes
(na cadência lenta-veloz do espaço)
o que é o tempo?
(mulher nua no balanço. tempo manso)
sábias senhoras, no compasso dos céus
(brincam conosco em seu carrossel)
nos despertam os sonhos
com seus raios de aurora
estrelas
(menores)
perdidas na areia
banham-se em silêncio
escutam histórias 
(as de amor, trazidas ao mar na doçura do rio)

eu rio.
estrelas da praia beijam meus pés
(estrelas brilhantes acima de nós)
(datas marcadas. tempo feroz)

e quando, enfim, nos vimos a sós
sopravam por frestas
nosso sono quente
vigiando, zelosas, as loucuras da gente.
(amor reprimido. tempo perdido)

silêncio no mundo - e um tambor no meu peito
eu sabia que ali, a cada segundo,
uma estrela nascia (ao passo que outra morria)
e entre cores, brilhos... e um céu infinito,
lá no alto uma história
um encontro (bonito!)
entre filha de estrelas, poeira estelar
(dores dentro)
centelhas
ouro do mar
e príncipe (ou rei?)
(que certezas terei?)
senhor de fogueiras, incêndios contidos...
folião curioso, brincando comigo!

entre cheiros - e toques
a energia dos corpos
acomodou-se entre as formas, e cores e vãos
até explodir
janelas afora, subir para o céu, crescer (e ir embora!)
(um amor desejado. tempo parado)

e foi tudo tão breve, um cometa brilhante
(uma onda do mar, carnaval de amantes)
tive medo de amar
(e seguir adiante)
e, brincante,
entreguei-me inteira ao desejo sem fim
com a bênção dos céus, santos e serafins,
consumi-me entre o brilho
ateei fogo em mim!

inês, morta e nascida e morta na sexta-feira de cinzas.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

filtro dos sonhos

banham meus pés espumas prateadas
(descomunal energia, delicadas lambidas de amor e perdão)

mãe colossal de todas as mães
embebe o ouro milenar
(pura entrega, fosca e reluzente),
embebe meus poros
minha pele aberta, meus cabelos
cobre-me de água e sal
(lava-me os olhos e os sonhos).

traz-me amantes com cheiro de mar
sopra
até brotarem as forças dos meus movimentos.
lava profundo isto que sinto
e canta
cantigas de marinheiros
cantares de avó.

e mergulho com devoção (nos cristais infinitos
ocultos sob as ondas embriagantes - limite entre mundos)

traz-me amantes
pro fundo do mangue
(profundos silêncios,
entregas sutis,
estalos, feitiços, lama, doçura)
berço verde
que sol e lua
abraçam, esquentam, escondem-revelam.

e as ondas de açúcar
mistérios resvalam
(trazendo cantos de esquecimentos doídos
de amores passados
naufrágios
engasgos)


sou casco, estrela, areia, coral
um resto mortal
reluzente
e só.
sou lama, sou água,
sou rio
sou pó.

dona de nada, senhora de tudo
um traço bruto
que o vento e a água constroem por fé.

inês.
(a vida é tão rara!)

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